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#Dramas#Literatura Brasileira

Amor e Pátria

Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)

Afonsina — Saber desejo

O qu’ali’stá;

Eu sou teimosa, Sou curiosa

Sou caprichosa,

Sou ardilosa,

Serei vaidosa;

Mas não sou má.

Plácido e Leonídia — Ninguém lhe diga

O qu’ali’stá;

Será teimosa

E curiosa,

E caprichosa, E ardilosa;

Será vaidosa:

Mas não és má.

Prudêncio — Ninguém lhe diga

O qu’ali’stá;

Tu és teimosa E curiosa,

E caprichosa,

E ardilosa,

Muito vaidosa, E também má.

Não foras tu mulher, minha rica sobrinha!

Afonsina – Meu tio, não é muito que eu tenha um defeito que é comum nas mulheres, quando falta à vossa mercê uma das primeiras virtudes dos homens.

Plácido – Afonsina!

Prudêncio – Deixem falar a retórica; diga lá, minha senhora: qual é então essa virtude que me falta?

Afonsina – É a coragem, meu tio.

Prudêncio – Ora, fico-lhe muito obrigado! Sou um grandíssimo poltrão, porque não entro em revoluções nem em bernardas, e guardo a minha espada de tenente de ordenanças para as grandes crises e os momentos supremos?

Afonsina – Então é bem para recear que a sua espada fique eternamente na bainha.

Prudêncio – Pode fazer o favor de dizer por quê?

Afonsina – É bem simples: é porque vossa mercê nem considera momento supremo aquele em que se trata da regeneração e da independência da pátria. Prudêncio – E eu creio que era mais próprio da senhora ocupar-se com bilros e agulhas, do que com independências e regenerações políticas: uma mulher metida em negócios do Estado, é capaz de transformar a nação em casa de Orates.

Afonsina – Porém, meu tio, olhe que nem por isso o momento deixa de ser supremo, e é preciso que nos dê provas do seu valor.

Prudêncio – Provavelmente quer que eu deite a correr pelas ruas, dando vivas ao que não entendo e morras a quem nunca me fez mal, e que me exponha a ter a sorte do Tiradentes, como está fazendo o seu querido Luciano, que é um doido de pedras.

Leonídia – Mano Prudêncio, atenda ao que diz!

Plácido – Luciano cumpre o seu dever: a causa que adotou é a de sua pátria, e se morrer por ela será um mártir, um herói; nunca, porém, um louco. Prudêncio – Pode-se bem servir à pátria sem fazer traquinadas.

Afonsina – É verdade; meu tio tem razão: Luciano é um louco, e ele um homem de muito juízo, de uma bravura e de um patriotismo como nunca vi!

Prudêncio – A senhora parece que quer divertir-se comigo?

Afonsina – Eu quero somente recordar agora alguns fatos. A nove de janeiro deste ano, o senado da câmara foi, em nome do povo, representar ao príncipe contra a sua retirada do Brasil; não houve um só patriota que não corresse ao largo do Paço; meu tio, o momento era supremo e quando se ouviu repetir o glorioso – Fico – do Príncipe, o primeiro que o saudou com um viva entusiástico foi Luciano, e entre aqueles que responderam a esse brado patriótico, ouvi dizer que não se achava meu tio.

Prudêncio – Estava retido em casa com um ataque de maleitas.

Plácido (A Leonídia) – Afonsina esqueceu-se da sala e da caixa.

Leonídia (A Plácido) – Pois se foram ofender o seu Luciano!

Afonsina – Dois dias depois, a onze de janeiro, Avilez e as tropas lusitanas ocuparam o morro do Castelo; a luta parecia dever começar; os brasileiros correram para o campo de Santana e Luciano foi o chefe de uma companhia de voluntários. Meu tio, o momento era outra vez supremo, e ouvi dizer que vossa mercê não apareceu durante três dias.

Prudêncio – Estava de erisipela, senão veriam!

Plácido (A Leonídia) – Olha a cara com que está o mano Prudêncio.

Leonídia (A Plácido) – Bem feito: é para não ser bazófio.

Afonsina – Mas Avilez retirou-se com os seus para a Praia Grande; o perigo não tinha ainda passado, e no campo do Barreto reuniram-se as milícias brasileiras e as falanges dos patriotas: Luciano, à frente dos seus bravos companheiros, lá se achou pronto para o combate e fiel à causa da pátria. Ah! Meu tio, o momento era de novo ou continuava a ser supremo, e eu ouvi dizer que não houve quem pudesse descobrir onde vossa mercê se escondia.

Prudêncio – Achava-me atacado de reumatismo nas pernas.

Afonsina – Ah! É que vossa mercê é um compêndio de todas as moléstias, e eu tenho reparado que sempre adoece a propósito!

(continua...)

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