Por Padre Antônio Vieira (1674)
5. Mulierem fortem, quis inveniet (Prov. 31,10. 11.1S.18 etc.)? Quem achará no mundo uma mulher forte, uma mulher varonil, uma mulher como homem? – Tudo isso quer dizer o texto: Fortem, virilem, viraginem. Quando eu li as bravezas desta proposta e pergunta de Salomão, estava esperando, ou por uma Judite, com a espada na mão direita e a cabeça de Olofernes na esquerda, ou por uma Jael, com o cravo e com o martelo atravessando as fontes de Sisara; por uma Débora, plantada na testa de um exército, capitaneando esquadrões e vencendo batalhas. Mas não é isto o que responde Salomão. Diz que a mulher forte, a mulher varonil, a mulher mais que mulher, era uma mulher negociante:Agrum emit, syndonem vendit, et vidit quia bona est negotiatio eius.3 E como negociava esta mulher? Como o homem do Evangelho: com cabedal, com diligência, com ventura. Com cabedal: Dedit praedam domesticis suis;4 com diligência: Non extinguetur in nocte lucerna ejus;5 com ventura, e ventura sobre todas: Multae filiae congregaverunt divitias; tu supergressa es universos.6 Já temos uma mulher negociante como homem. Só nos faltava para Santa Isabel, que nos dissesse Salomão o nascimento, a pátria, e o estado desta notável mulher. Também isso disse. Disse que era rainha, e espanhola, e aragonesa. Rainha: Purpura et byssus indumentum ejus,7 porque naquele tempo só às pessoas reais era lícito vestir púrpura. Espanhola: Procul, et de ultimis finibus pretium ejus,8 porque na antiga cosmografia, e na frase da Escritura, o fim da terra é Espanha. Finalmente aragonesa, e tal aragonesa, que é mais: Et spoliis non indigebit,9 porque os aragoneses, entre todas as nações de Espanha, foram os primeiros que enobreceram e enriqueceram com despojos a sua coroa, conquistando novas terras, novos mares e novas gentes. E Santa Isabel em particular foi nascida e criada nos braços de el-rei Dom Jaime de Aragão, por sobrenome, o Conquistador; o qual, e seu filho el-rei Dom Pedro, pai de Isabel, foram os que conquistaram em Espanha o Reino de Valença, em Itália o Reino de Sicília, no Mediterrâneo as Ilhas de Evisa e Malhorca. E não pararam aqui os despojos. A estes se seguiram sucessivamente, primeiro os reinos de Córsega e Sardenha, depois o fiorentíssimo e belicosíssimo reino de Nápoles, e ultimamente, quê? A mesma Jerusalém, onde Salomão escrevia, e onde estava vendo a mulher forte de que falava, entre despojos nascida, entre despojos criada, e de tão gloriosos despojos herdeira: Et spoliis non indigebit. 6. Isto suposto, e suposto que eu não sei dizer o que me diz o Evangelho, o tema será o sermão, e o assunto dele, a melhor negociante do reino do céu: Simile est regnum caelorun homini negotiatori. Negociou Isabel de um reino para outro reino, e de uma coroa para outra coroa, não do reino e coroa de Aragão para o reino e coroa de Portugal, senão do reino e coroa da terra, para o reino e coroa do céu, que vem a ser; em menos palavras, Rainha e Santa. Estes dois nomes somente havemos de complicar um com o outro, e vereinos a nossa rainha tão industriosa negociante no manejo destas duas coroas, que com a coroa de rainha negociou ser maior santa, e com a coroa de santa negociou ser maior rainha. Maior rainha, porque santa, e maior santa, porque rainha. A rainha de todos os santos nos alcançará a graça. Ave Maria.
§II
Rainha e santa, e porque santa, maior rainha. As coroas não são mercadoria de lei. Os reis nas parábolas de Cristo. Os três reis santos das Escrituras. Por que não há rainhas santas nas Escrituras?
Simile est regnum caelorum homini negotiatori. Rainha e santa, e porque santa, maior rainha. Esta é a primeira parte do nosso discurso, e este foi o primeiro lanço da melhor negociante do reino do céu.
7. O maior cabedal que pode dar o mundo, é uma coroa. Mas, ainda que as coroas são as que dão as leis, não são mercadoria de lei. Ao menos eu não havia de assegurar esta mercadoria de fogo, mar e corsário, porque as mesmas coroas, muitas vezes, elas são o roubo, elas o incêndio, elas o naufrágio. Para conquistar reinos da terra, o melhor cabedal é uma coroa, mas para negociar o reino do céu, é gênero que quase não tem valor. Ponde uma coroa na cabeça de Ciro; conquistará os reinos de Baltasar; ponde uma coroa na cabeça de Alexandre: conquistará os reinos de Dario; ponde uma coroa, não na cabeça, senão no pensamento de César, e oprimirá a liberdade da pátria, e da mais florente república fará o mais soberbo e violento império. Mas para negociar o reino do céu, nem a Baltasar, nem a Dario, nem a Alexandre, nem a César, nem ao mesmo Ciro, a quem Deus chamava o seu rei e o seu ungido, Christo meo Cyro (Is. 45,1) valeram nada as coroas.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 30 ago. 2026.