Por Padre Antônio Vieira (1647)
Antes de Davi entrar em desafio com o gigante, perguntou que prêmio se havia de dar a quem tirasse do mundo aquele opróbrio de Israel (1 Rs. 17,23). E foi-lhe respondida que o rei lhe havia de dar sua própria filha em casamento (1 Rs. 17, 25). Saiu Davi a campa, matou o filisteu, mas quando aos aplausos da famosa vitória porece que se haviam de seguir logo as bodas, nada menos lhe passava pelo pensamento a Saul. Puxava Davi pela palavra real, requeria o prêmio, não arbitrário, senão certo, de um tão singular e notório serviço, e a resposta por muito tempo (como se costuma), eram dilações e palavras frívolas (1 Rs. 18, 25). Finalmente mandou-lhe responder o rei que, se queria com efeito a satisfação que se lhe prometera, matasse mais um cento de filisteus. Servi lá, arriscai-vos lá, e fiai-vos de promessas e mercês de homens. De maneira que para Davi merecer a mercê, bastou-lhe pelejar e vencer um filisteu, e para fazer a mercê efetiva, foi-lhe necessário pelejar e vencer um cento de filisteus. Isto é o que vos acontece em todas as promessas e despachos dos reis da terra. Muito mais custa o requerimento que o merecimento. Para o merecimento basta batalhar com um inimigo; para o requerimento é necessário batalhar com um cento de ministros, que as mais vezes não são amigos. Para render o filisteu de Davi bastou uma pedra; para render estes filisteus tão estirados, tão sombrios, tão armados, não basta uma pedreira, nem muitas pedreiras, e se alguns se rendem com pedras, não são os do rio. Mas quando não foram tão duros e tão dificultosos, bastava serem tantos.
Esta é pois a primeira graça que Deus nas faz na Bula da Santa Cruzada. Tantas enchentes de mercês, tantos tesouros de misericórdias e favores, e todos despachados por um só ministro: um confessor. Para as mercês dos reis da terra, que não importam nada, tantas papeladas e tantas ministros; para as graças do Rei do céu, que importam tudo, uma só folha de papel e um só ministro, uma Bula e um sacerdote: Unus.
Mas porque, para tirar toda a dificuldade e repugnância, não basta só ser o ministro um, se for certo e determinado, concede-vos mais a bula, que este um seja, à vossa eleição, aquele que vós escolherdes. Esta é a maior circunstância de graça que se encerra nesta graça. Quando Cristo sarou aquele leproso do Evangelho, mandou-lhe, segundo o texto de S. Marcos, que se fosse presentar ao Príncipe dos Sacerdotes: Vade, ostende te Principi Sacerdotum.3 Contra este mandado está que a lei universal do Levítico, como consta do capítulo treze, só obrigava aos leprosos que se manifestassem a qualquer sacerdote, aos quais pertencia julgar da lepra – (Lev. 13,1). Pois, se qualquer sacerdote ordinário podia conhecer da lepra, porque manda Cristo a este leproso que nomeadamente se presente ao Príncipe dos Sacerdotes? Respondem os expositores que antigamente assim era, mas que esta lei geral se tinha restringido depois, e estava reservada a caso da lepra ao conhecimento e juíz do Príncipe dos Sacerdotes somente. E por isso Cristo mandou o leproso, não a outra sacerdote, senão ao Príncipe: Principi Sacerdotum. O mesmo passa hoje nos casos e pecados reservados, de que não podem absolver os sacerdotes ordinários, e só pertence a absolução ao prelado de toda a diocese, e talvez ao príncipe supremo de toda a Igreja. E posto que semelhantes reservações sejam muito justas e necessárias para refrear a temeridade, não há dúvida que também são ocasionadas para precipitar a fraqueza. Que haja um homem de descobrir a sua lepra e manifestar a sua miséria, de que só Deus é sabedor, não só a outro homem como ele, senão determinadamente a tal homem? Grave e dificultosa pensão! E muito mais, quando pela distância dos lugares se acrescenta o trabalho e a despesa, e pela grandeza e dignidade da pessoa, se faz maior a repugnância, o pejo e o horror. É verdade que os meios da salvação se hão de procurar e aceitar de qualquer mão, ainda que seja a mais aborrecida e repugnante: Salutem ex inimicis nostris, et de manu omnium qui oderunt nos.4 Mas ainda mal, porque é tal a fraqueza e pusilanimidade humana, que estão ardendo muitos no inferno, não por não confessar seus pecados, senão pelos não confessar a tal homem, sem reparar que no dia do juízo hão de ser manifestos todos a todos os homens.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 30 ago. 2026.