Por Padre Antônio Vieira (1652)
Toma por empresa
S. Mateus escrever a vida e ações de Cristo, e escreve o seu Evangelho. Segue o
mesmo exemplo S. Marcos, e escreve o seu. Chegaram às mãos de S. Lucas estes
dois evangelhos, e outros que naquele tempo saíram, que a Igreja não admitiu, e
parecendo-lhe a S. Lucas que todos diziam pouco, resolve-se a fazer terceiro
Evangelho, e começa assim, falando com Teófilo, a quem o dedicou: Quoniam multi
conati sunt ordinare narrationem quae in nobis completae sunt rerum.5 Como se
dissera: Não vos espanteis, ó Teófilo, de que eu escreva Evangelho, de que eu
escreva a história e maravilhas de Cristo, depois de o haverem feito quantos
sabeis e tendes lido, porque todos esses que escreveram, ainda que tantos e
tanto, não chegaram mais que a intentar: Quoniam multi conati unt. Escreveu
enfim o seu Evangelho S. Lucas. Chegam todos os três Evangelhos às mãos de S.
João, e parecendo-lhe, como verdadeiramente era, que lhes faltava muito por
dizer, resolve o discípulo amado a escrever quarto Evangelho. Assim o fez, e
assentou a pena S. João, porque esta foi a última obra sua, ainda depois do
Apocalipse. Mas que vos parece que lhe sucederia a S. João com o seu Evangelho?
Leu-o depois de o haver escrito, e sucedeu-lhe com o seu, o que tinha sucedido
com os outros: pareceu-lhe que era muito pouco o que tinha dito, em comparação
do infinito que lhe ficara por dizer. Torna a tomar a pena, e acrescenta no fim
do seu Evangelho estas duas regras: Sunt et alia multa, quae fecit Jesus, quae
si scribantur per singula, nec ipsum arbitror mundum capere posse eos, qai
scribendi sunt libros (Jo. 21,25): Saibam todos os que lerem este livro, que
nele não estão escritas todas as obras e maravilhas de Cristo, nem a menor
parte delas, porque se todas se houveram de escrever, nem em todo o mundo
couberam todos os livros. – Pergunto agora: Em que disse mais S. João: nestas
duas últimas regras, ou em todo o seu Evangelho? Parece a pergunta temerária.
Ao menos nenhum expositor levantou até agora tal questão. Mas responde tácita e
admiravelmente a ela aquele que entre todos os expositores, na minha opinião, é
singular, o doutíssimo Maldonado: Quod dum dicit, et se excusat, et res Christi
magis quodammodo, quam si eas perscripsisset, amplificat: Muito mais disse S.
João só nestas duas regras últimas, do que disse em todo o livro do seu
Evangelho, e do que dissera em muitos outros seus, se os escrevera. – Notável
resolução! É possível que disse mais S. João nestas duas regras, que em todo o
seu Evangelho e em um mundo inteiro de livros, quando os tivera escrito? Sim.
Porque em todo esse Evangelho, e em todos esses livros, escrevera S. João as
maravilhas de Cristo; nestas duas regras confessou que se não podiam escrever.
E muito maior louvor e encarecimento é das coisas grandes confessar que se não
podem escrever, que escrevê-las. O que se escreve, ainda que seja muito, cabe
na pena; o que se não pode escrever, é maior que tudo o que cabe nela. O que se
escreve, tem número e fim; o que se não pode escrever, confessa-se por
inumerável e infinito. Muito mais disse logo S. João no que não escreveu que no
que escreveu. No que escreveu, disse muitas maravilhas de Cristo, mas não disse
todas; no que não escreveu, disse todas, porque mostrou que eram tantas, que se
não podiam escrever. No que escreveu, venceu aos três evangelistas, porque
disse muito mais que todos eles; no que não escreveu, venceu-se a si mesmo,
porque disse muito mais do que tinha escrito.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 23 ago. 2026.