Por Padre Antônio Vieira (1674)
Tumultuou o povo no deserto contra Moisés, e foi o tumulto de carnaval. Utinam mortui essemus in Aegypto, quando sedebamus super ollas carnium.2 Egito, memórias da gentilidade, gosto e apetite depravado, intemperanças de gula, enfim carne. E que fez Deus então para apagar a rebelião e moderar a desordem deste apetite bruto? Dixitautem Dominus ad Moysen: Ego pluam vobis panes de caelo:3 Moisés, não é bem que o meu povo se lembre do Egito e daquilo que tinha e o deleitava quando vivia entre gentios: eu lhe darei pão do céu. De maneira que a primeira origem do maná e a primeira instituição do sacramento em figura, foi para apartar e descarnar os homens dos apetites e costumes que chamais carnavalescos, e para desarraigar do seu povo as memórias e relíquias da gentilidade, quais são as que ainda se conservam entre os cristãos nestes dias. Bem. E teve mais algum outro fim Deus em dar o maná ao povo? Sim: o que eu digo. Não só lhe deu o maná para o tirar daquele vício, senão também para o tentar. Ouvi o que ajuntou Deus às palavras referidas: Ego pluam vobis panes de caelo; egrediatur populus, et colligat, ut tentem eum, utrum ambulet in lege mea, an non (Êx. 16, 4): Eu darei o maná ao povo; ele sairá a recolher, e eu com isto o tentarei, se obedece à minha lei ou não. – Este foi o segundo fim por que deu Deus o maná. O primeiro, para remédio, o segundo, para tentação; o primeiro, para apartar a povo dos costumes profanos do Egito, o segundo, para tentar e provar o mesmo povo se obedecia e amava a Deus ou não: Ut tentem eum, utrum ambulet in lege mea, an non, que é em próprios termos o fim e sentido das nossas palavras: Tentat vos Dominus Deus vester, ut palam ilat utrun diligatis eum, an non.
Já temas a Deus tentador, e tentador no carnaval, e tentador como sacramento, e que o fim de nos tentar neste tempo e com este mistério é para provar nosso amor. Mas em que consiste a energia desta tentação, o exame desta dúvida, e a averiguação desta prova? Consiste em se conhecer e constar publicamente se pode mais em nós a fé que a vista, e se deixamos a gosto do que se vê pelo amor do que se não vê. Tornemos ao deserto, e prossigamos a mesma história.
Depois de alguns dias, que não foram muitos, tornou aquele povo mal-acostumado e rebelde a cair na mesma tentação. Lembravam-se como dantes dos comeres profanos do Egito e das grosserias vis que lá tinham por regala, e diziam com grande aborrecimento que o maná os enfastiava: Anima nostra nauseat super cibo isto.4 Este é um dos lugares da Escritura mais dificultosos de entender, porque o maná, como consta do mesmo texto sagrado, continha em si os sabores de todos os manjares: Deserviens uniuscujusque voluntati, diz a sabedoria.5 E Davi: Omnem escam abominata est anima eorum.6 Pois se o maná continha todos os sabores, como podia causar fastio? Aquele fastio não era por demasiada fartura, nem por falta de fome, ou vontade de comer, porque no mesmo tempo suspiravam pelos olhos do Egito. Logo, se o maná, não só de prato a prato, mas de bocado a bocado, podia variar os sabores, e os hebreus, quando comiam, se assentavam sempre a uma mesa mais abundante e esquisitamente provida que a do seu Faraó, e tinham nela juntas as sabores de quanta nada na mar, voa no ar, e pasce ou nasce na terra, como não tiravam o fastio de um sabor com a mudança e variedade do outro? E se alguém me disser que a delicadeza de manjares tão preciosos não era para o paladar grosseiro e servil de uma gente pouca antes escrava, donde vinha dizerem eles: In mentem nobis veniunt cucumeres, et pepones, porrique, et caepe, et allia;7 os sabores destas verduras rústicas e de quaisquer outras baixezas vilãs e grosseiras também se continham no mesmo maná. Como logo lhes causava nem podia causar fastio? Os doutos terão lido muitas soluções desta grande dúvida, mas eu cuido que vos hei de dar a literal e verdadeira. Diga que o fastio do maná não estava no gosto: estava nos olhos. O que gostavam os hebreus era tudo quanto queriam, mas o que viam era somente maná. Maná ao jantar, maná à ceia, maná hoje, maná amanhã, sempre maná. E como toda a variedade era para o gasto, e para os olhos não havia variedade nem diferença, os olhos eram os que se enfastiavam. Não é exposição minha, senão confissão sua. Eles o dizem no mesmo texto: Nihil aliud respiciunt oculi nostri, nisi man (Núm. 11,6): Os nossos olhos não vêem outra coisa mais que maná. – E como não viam mais que maná, por isso o não podiam ver, por isso se enfastiavam dele, e tornavam com os desejos ao Egito.
Oh! divino maná e verdadeiro pão do céu! Cremos e confessamos que estão encerrados debaixo desses acidentes todos os gostos e delícias da alma; mas Anima nostra nauseat super cibo isto, porque Nihil respiciunt oculi nostri, nisi man. Esta foi a tentação antigamente com que Deus tentou o povo israelítico no maná: Ut tentem eum. Esta é hoje a tentação com que tenta o povo católico no Sacramento: Tentat vos Dominus Deus vester. Os hebreus, exceto um Moisés e os poucos que o seguiam, os cristãos, exceto outro Moisés8 e os poucos que o seguem, todos vemos rendidos à tentação, porque todos gostam mais das mesas profanas e abomináveis do Egito, que daquele pão do céu. A razão desta semrazão tão grande em uns e outros é a mesma: nos hebreus porque não viam mais que maná; nos cristãos, porque não vemos mais que aqueles acidentes brancos: Nihil respiciunt oculi nostri nisi man. Oh! fraqueza da fé, oh! cegueira e tirania dos olhos humanos! Tenta Deus nestes dias, e tenta o mundo, e uma e outra tentação põe o laço nos olhos, mas a de Deus nos olhos fechados, a do mundo nos olhos abertos. Deus tenta com a sua presença encoberta; o mundo tenta com as suas representações públicas. E como aquelas representações se vêem, e esta presença não se pode ver, em vez de triunfar a fortaleza da fé contra os apetites e enganos da vista, triunfa a tirania da vista contra as obrigações da fé. Se Cristo como está presente, corresse aquela cortina que o encobre, subitamente se veria nesta igreja a transfiguração do Tabor, e toda a cidade de
Pedro diria como mesmo Pedro: Bonum est nos hic esse.9 Mas Cristo não quer vencer o mundo com armas iguais. Põe-se em campo contra ele, invisível a nossos olhos, porque vem a fazer prova de nossa fé e do nosso amor: Ut palam fiat, utrum diligatis eum, an non.
§III
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 15 ago. 2026.