Por Padre Antônio Vieira (1655)
Resolveu-se o pródigo a tomar para casa do pai e confessar sua culpa, e como bom penitente dispôs e ordenou primeiro a sua confissão: Ibo ad patrem meum, et dicam ei: Pater peccavi in coelum, et coram te.2 Feita esta primeira diligência, pôs-se a caminho, e estando ainda muito longe: Cum adhuc longe esset, eis que subitamente se acha entre os braços do pai, apertando-o estreitamente neles, e chegando-o ao rosto com as maiores carícias: Accurrens cecidit super collum ejus, et osculatius est eum. Então se lançou o pródigo a seus pés e fez a sua confissão como a trazia prevenida: Et dixit ei filius: Pate; peccavi in coelum et coram te. Pois agora, filho pródigo? Não era isso o que vós tínheis ensaiado. Enfim temos a comédia turbada. O pai saiu cedo, o filho falou tarde. Perderam as figuras as deixas, erraram a história, trocaram o mistério. Esta história do pródigo não é a comédia ou o ato sacramental da confissão? Sim. Logo, primeiro havia o pródigo de lançar-se aos pés do pai e fazer o papel da sua confissão, como a trazia estudada, e depois havia o pai de lançar-lhe os braços, e restitui-lo à sua graça. Pois por que se troca toda a ordem, e primeiro lhe lança os braços o pai, e depois se confessa o filho? Porque representavam ambos não só o ato sacramental da confissão, senão da confissão perfeitíssima. Na confissão menos perfeita, primeiro se confessa o pecado, e depois se recebe a graça; na confissão perfeitíssima primeiro se recebe a graça, e depois se confessa o pecado. A confissão menos perfeita começa pelos pés de Deus, e acaba pelos braços; a confissão perfeitíssima começa pelos braços e acaba pelos pés, como aconteceu ao pródigo. A razão é clara, porque a confissão perfeitíssima é aquela em que o pecador vai aos pés de Deus verdadeiramente contrito e arrependido de seus pecados. Vai verdadeiramente contrito e arrependido? Logo já vai em graça, já vai perdoado, já vai absolto. E esta é a confissão que hoje temos no milagre do Evangelho. Confissão em que primeiro se recebe a graça e depois se confessa o pecado; confissão em que primeiro sai o demônio, e depois fala o mudo: Cum ejecisset daemonium, locutus est mutus.
Se não houvera no
mundo mais modos de confissões que estes dois que tenho dito, não me ficava a
mim para fazer hoje mais que seguir, como dizia, as pisadas dos nossos
pregadores antepassados, e exortar à freqüência deste sacramento e à confissão
e arrependimento dos pecados. Mas se me não engano, ainda há outro modo de
confissão, e mui própria da corte. Deve ser como os trajos: confissão à la
moda. Dissemos que havia confissão em que primeiro sai o demônio e depois fala
o mudo, e confissão em que primeiro fala o mudo e depois sai o demônio. Ainda
há mais confissão. E qual é? Confissão em que o mudo fala e o demônio não sai;
confissão em que o mudo fala e o demônio fica. Judas quer dizer confessio:
confissão. E assim como no apostolado de Cristo houve um Judas traidor e outro
Judas santo, assim há hoje na Igreja confissões santas e confissões traidoras.
Judas, o traidor, não foi traidor mudo; antes a boca e a língua foi o principal
instrumento de sua traição. Ave Rabbi; et osculatus est eum.3 Desta sorte são
muitas das confissões que hoje vemos no mundo, e por isso eu há muito que me
temo muito mais das confissões que dos pecados. E de fé que toda a verdadeira
confissão causa graça na alma. Nunca houve tanta freqüência de confissões como
hoje; contudo vemos muito poucos efeitos da graça. Qual será a causa disto:
tanta confissão e tão pouca graça? Eu não sei a causa que é, mas sei a causa
que só pode ser. A causa que só pode ser é que são confissões em que falam os
mudos, mas não saem os demônios. A confissão bem feita é sacramento, a malfeita
é sacrilégio; a confissão bem feita tira todos os pecados, a malfeita
acrescenta mais um pecado; a confissão bem feita lança o demônio fora, a
malfeita mete-o mais dentro. E se cada dia vos vemos mais entrados e mais penetrados
do demônio, que fé quereis que tenhamos nas vossas confissões? Ora, eu hoje hei
de tratar da confissão como prometi. Mas, porque o remédio se deve aplicar
conforme a chaga, não hei de tratar da confissão dos pecados, senão da
confissão das confissões. Eis aqui a velhice e a novidade do assunto que trago
hoje. Não vos hei de exortar a que confesseis os pecados, senão a que
confesseis as confissões. Os escrúpulos que a isto me movem irei discorrendo em
um exame particular. Eu farei o exame, para que vós façais a confissão; eu
serei o escrupuloso, para que vós sejais os confessados.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 15 ago. 2026.