Por Padre Antônio Vieira (1669)
Mas do que éreis e do que sois, passemos ao que tínheis e ao que tendes. Entronizado José no governo e império do Egito, soube el rei Faraó que tinha pai e irmãos na terra de Canaã, e mandou-os logo chamar para que viessem ser companheiros da fortuna de seu irmão. O recado foi notável, e dizia assim: Properate, nec dimittatis quidquam de supellectili vestra, quia omnes opes Aegypti vestrae erunt: Vinde logo, e não deixeis coisa alguma das vossas alfaias, porque todas as riquezas do Egito hão de ser vossas (Gên. 45,20). Este porquê, não entendo. Antes, porque todas as riquezas do Egito haviam de ser suas, não era necessário que trouxessem coisa alguma do que tinham em Canaã. Pois por que lhes manda Faraó que tragam todas as suas alfaias? Por isso mesmo: para que cotejando as alfaias da fortuna presente com as da fortuna passada, conhecessem melhor a mercê que o rei lhes fizera. Eram os irmãos de José uns pobres lavradores e pastores; saiam de cabanas e telhados de colmo, para virem morar em palácios dourados debaixo das pirâmides e obeliscos do Egito. Pois tragam as suas peles, as suas mantas, os seus pelotes de pano da serra; tragam as suas samarras, as suas alparcas, as suas gualteiras; tragam as suas escudelas de pão, e os seus tarros de cortiça, para que quando se virem com as paredes ricamente entapizadas, a prata rodar pelas mesas, a seda e ouro das galas, as pérolas e os diamantes das jóias, os criados, os cavalos, as carroças, conheçam quanto vai de tempo a tempo, e de fortuna a fortuna, e dêem graças a Faraó. Quer cada um conhecer e ver e apalpar a muita mercê que o rei lhe tem feito? Coteje as suas alfaias, as de casa e as da rua, as suas e as dos seus. A comparação deste muito com aquele pouco. Oh! quanto serviria para o agradecimento e para a modéstia, e ainda para fazer lastro a mesma fortuna!
Visto já o que éreis e o que sois, o que tínheis e o que tendes, resta a combinação dos lugares onde estáveis e onde estais. No segundo livro dos Reis, capítulo sétimo, estão registradas as mercês que Deus tinha feito a Davi, e diz assim o registo: Ego tuli te de pascuis sequentem greges, ut esses dux super populum meum (2 Rs. 7,8). Eu, diz Deus, tirei a Davi de entre pastores, onde guardava as ovelhas de seu pai, e o fiz capitão e governador sobre todo o meu povo. Não só diz Deus o lugar onde o pôs, senão também o lugar donde o tirou: o onde, e mais o donde. Pois, Senhor meu, que tão grandioso sois, se quereis que fiquem registadas em vossos livros as mercês que fizestes a Davi, por que mandais que se registe também neles o exercício de que vivia, e o lugar humilde de que o levantastes? Para que à vista deste lugar conheça melhor Davi a grande mercê que lhe tenho feito. Quando se vir com o bastão na mão, lembre-se que na mesma mão trazia o cajado. Se algum dia, que tudo se pode temer dos homens, lhe parecerem pequenas a Davi as mercês que lhe fiz, lembrar-se-á do lugar que tinha antes, e do que tem agora; lembrar-se-á donde o tirei e onde o pus, e logo lhe parecerão grandes. Estes ondes e estes dondes não se costumam registar nos livros das mercês. Seria bem que ao menos se registasse nas memórias dos que as recebem. Já que tivestes tanta estrela, ponde-lhe uma estrelinha à margem. Lembre-se o descontente com Davi onde estava e onde está; lembre-se com os irmãos de José do que tinha e do que tem; lembre-se com Adão do que era e do que é, e logo verá qual deve ser o queixoso, se o despacho, ou o despachado.
Não despachou Cristo hoje os nossos pretendentes, mas eu noto que nenhum deles se queixou. Pediram as duas supremas cadeiras do reino, pediram que Cristo os despachasse logo com três letras: Dic, dic, ut sedeant hi duo filii mei. E foram respondidos logo com outras três: Non, non est meum dare vobis4. E sendo este não tão claro, tão seco, tão desenfeitado, queixou-se porventura a intercessora? Queixaram-se os pretendentes? Nem uma palavra disseram. E por quê? Porque eram gente que sabia tomar as medidas à sua fortuna. Compararam o que tinham sido como que eram, e o que eram como que pretendiam ser. Na comparação do que tinham sido com o que eram, viam a melhoria do seu estado; na comparação do que eram como que pretendiam sei; reconheciam o excesso da sua ambição. E estas duas comparações lhes taparam a boca de maneira que não teve por onde brotar a queixa. Ontem remando a barca e remendando as redes, hoje despachados cada um de nós com uma das doze cadeiras do reino de Cristo. E que ainda não estejamos contentes e nos atrevamos a pretender os dois lugares supremos? Mais razão tem logo nosso Mestre de negar, do que nossa mãe e nós de pedir. Ele negou como justo, nós pedimos como demasiados e néscios: Nescitis quid petatis.
§III
Os beneméritos
maldespachados. Consolações humanas, as ações honradas, como já o reconhecia
Sêneca, são satisfações de si mesmas. A fama. O servo inútil do Evangelho e o
Venerável Beda. Catão e o reconhecimento dos romanos. A injustiça dos prêmios e
a opinião de Marco Túlio. Os não-premiados e o glorioso epitáfio ditado pelo
filho pródigo.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 13 ago. 2026.