Por Eça de Queirós (1888)
Affonso riu muito da phrase, e respondeu que aquellas razões eram excellentes - mas elle desejava habitar sob tectos tradiccionalmente seus; se eram necessarias obras, que se fizessem e largamente; e emquanto a lendas e agoiros, bastaria abrir de par em par as janellas e deixar entrar o sol.
S. ex.ª mandava: - e, como esse inverno ia secco, as obras começaram logo, sob a direcção d'um Esteves, architecto, politico, e compadre de Villaça. Este artista enthusiasmára o procurador com um projecto de escada apparatosa, flanqueada por duas figuras symbolisando as conquistas da Guiné e da India. E estava ideando tambem uma cascata de louça na sala de jantar - quando, inesperadamente, Carlos appareceu em Lisboa com um architecto-decorador de Londres, e, depois de estudar com elle á pressa algumas ornamentações e alguns tons de estofos, entregou-lhe as quatro paredes do Ramalhete, para elle ali crear, exercendo o seu gosto, um interior confortavel, de luxo intelligente e sobrio.
Villaça resentiu amargamente esta desconsideração pelo artista nacional; Esteves foi berrar ao seu Centro politico que isto era um paiz perdido. E Affonso lamentou tambem que se tivesse despedido o Esteves, exigiu mesmo que o encarregassem da construcção das cocheiras. O artista ia acceitar - quando foi nomeado governador civil.
Ao fim d'um anno, durante o qual Carlos viera frequentemente a Lisboa collaborar nos trabalhos, «dar os seus retoques estheticos» - do antigo Ramalhete só restava a fachada tristonha, que Affonso não quizera alterada por constituir a phisionomia da casa. E Villaça
não duvidou declarar que Jones Bule (como elle chamava ao inglez) sem despender despropositadamente, aproveitando até as antigualhas de Bemfica, fizera do Ramalhete «um museu.»
O que surprehendia logo era o pateo, outr'ora tão lobrego, nú, lageado de pedregulho - agora resplandecente, com um pavimento quadrilhado de marmores brancos e vermelhos, plantas decorativas, vazos de Quimper, e dois longos bancos feudaes que Carlos trouxera de Hespanha, trabalhados em talha, solemnes como córos de cathedral. Em cima, na antecamara, revestida como uma tenda de estofos do Oriente, todo o rumor de passos morria: e ornavam-n'a divans cobertos de tapetes persas, largos pratos mouriscos com reflexos metalicos de cobre, uma harmonia de tons severos, onde destacava, na brancura immaculada do marmore, uma figura de rapariga friorenta, arripiando-se, rindo, ao metter o pésinho n'agoa. D'ahi partia um amplo corredor, ornado com as peças ricas de Bemfica, arcas gothicas, jarrões da India, e antigos quadros devotos. As melhores salas do Ramalhete abriam para essa galeria. No salão nobre, raramente usado, todo em brocados de velludo côr de musgo d'outono, havia uma bella téla de Constable, o retrato da sogra de Affonso, a condessa de Runa, de tricorne de plumas e vestido escarlate de caçadora ingleza, sobre um fundo de paisagem enevoada. Uma sala mais pequena, ao lado, onde se fazia musica, tinha um ar de seculo XVIII com seus moveis enramelhetados d'ouro, as suas sedas de ramagens brilhantes: duas tapeçarias de Gobelins, desmaiadas, em tons cinzentos, cobriam as paredes de pastores e d'arvoredos.
Defronte era o bilhar, forrado d'um couro moderno trazido por Jones Bule, onde, por entre a desordem de ramagens verde-garrafa, esvoaçavam cegonhas prateadas. E, ao lado, achava-se o fumoir, a sala mais commoda do Ramalhete: as ottomanas tinham a fôfa vastidão de leitos; e o conchego quente, e um pouco sombrio dos estofos escarlates e pretos era alegrado pelas cores cantantes de velhas faienças hollandezas.
Ao fundo do corredor ficava o escriptorio de Affonso, revestido de damascos vermelhos como uma velha camara de prelado. A macissa meza de pau preto, as estantes baixas de carvalho lavrado, o solemne luxo das encadernações, tudo tinha ali uma feição austera de paz estudiosa - realçada ainda por um quadro attribuido a Rubens, antiga reliquia da casa, um Christo na Cruz, destacando a sua nudez de athleta sobre um ceu de poente revolto e rubro. Ao lado do fogão Carlos arranjara um canto para o avô com um biombo japonez bordado a ouro, uma pelle d'urso branco, e uma veneravel cadeira de braços, cuja tapeçaria mostrava ainda as armas dos Maias no desmaio da trama de sêda. No corredor do segundo andar, guarnecido com retratos de farmlia, estavam os quartos de Affonso. Carlos despozera os seus, n'um angulo da casa, com uma entrada particular, e janellas sobre o jardim: eram tres gabinetes a seguir, sem portas, unidos pelo mesmo tapete: e, os recostos acolchoados, a sêda que forrava as paredes, faziam dizer ao Villaça que aquillo não eram aposentos de medico - mas de dançarina!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.