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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

A mocidade que nos sucedeu, em vez de ser inventiva, audaz, re volucionária, destruidora de ídolos, parece-nos servil, imitadora, copista, curvada de mais diante dos mestres. Os novos escritores não avançam um pé que não pousem na pegada que deixaram outros. Esta pusilanimidade torna as obras trôpegas, dá-lhes uma expressão estafada; e a nós, que partimos, a geração que chega faz-nos o efeito de sair velha do berço e de entrar na arte de muletas.

Os documentos das nossas primeiras loucuras de coração queimámo-los há muito, os das nossas extravagâncias de espírito de sejamos que fiquem. Aos vinte anos é preciso que alguém seja estroi na, nem sempre talvez para que o mundo progrida, mas ao menos para que o mundo se agite. Para se ser ponderado, correcto e imó vel há tempo de sobra na velhice.

Na arte, a indisciplina dos novos, a sua rebelde força de re sistência às correntes da tradição, é indispensável para a revi vescência da invenção e do poder criativo, e para a originalidade artística. Ai das literaturas em que não há mocidade! Como os velhos que atravessaram a vida sem o sobressalto de uma aventura, não haverá nelas que lembrar Além de que, para os que na idade madura foram arrancados pelo dever às facilidades da improvisação e entraram nesta região dura das coisas exactas, entristecedora e mesquinha, onde, em lugar do esplendor dos heroísmos e da beleza das paixões. só há a pequenez dos caracteres e a miséria dos sentimentos, seria doce e reconfortante ouvir de longe a longe, nas manhãs de sol, ao voltar da Prima vera, zumbir no azul, como nos bons tempos, a dourada abelha da fantasia

A última razão que nos leva a não repudiar este livro, é que ele é ainda o testemunho da íntima confraternidade de dois antigos homens de letras, resistindo a vinte anos de provação nos contactos de uma sociedade que por todos os lados se dissolve. E, se isto não é um triunfo para o nosso espírito, é para o nosso coração uma suave alegria.

Lisboa, 14 de Dezembro de 1884.

De V.

Antigos amigos, EÇA DE QUEIRÓS RAMALHO ORTIGÃO

EXPOSIÇÃO DO DOUTOR ***

I

Sr. Redactor do Diário de Notícias: Venho pôr nas suas mãos a narração de um caso verdadeira mente extraordinário, emque intervim como facultativo, pedindo-lhe que, pelo modo que entender mais adequado, publique na sua folha a substância, pelo menos, do que vou expor.

Os sucessos a que me refiro são tão graves, cerca-os um tal mistério, envolve-os umatal aparência de crime que a publicidade do que se passou por mim torna-se importantíssima como cha ve única para a desencerração de um drama que suponho terrível conquanto nãoconheça dele senão um só acto e ignore inteiramen te quais foram as cenas precedentes e quais tenham de ser as últimas.

Há três dias que eu vinha dos subúrbios de Sintra em compa nhia de F..., um amigomeu, em cuja casa tinha ido passar algum tempo.

Montávamos dois cavalos que F... tem na sua quinta e que de viam ser reconduzidos aSintra por um criado que viera na véspe ra para Lisboa. Era ao fim da tarde quando atravessámos a charneca. A me lancolia do lugar e da hora tinha-se-nos comunicado, e vínhamos silenciosos, abstraídos na paisagem, caminhando apasso.

A cerca talvez de meia distancia do caminho entre S. Pedro e o Cacém, num ponto a que não sei o nome porque tenho transita do pouco naquela estrada, sítio deserto como todo ocaminho através da charneca, estava parada uma carruagem.

Era um coupé pintado de escuro, verde e preto, e tirado por uma parelha cor decastanha. O cocheiro, sem libré, estava em pé, de costas para nós, diante dos cavalos. Dois sujeitos achavam-se curvados ao pé das rodas que ficavam para a parte da estradapor onde tínhamos de passar, e pare ciam ocupados em examinar atentamente o jogo da carruagem.Um quarto indivíduo, igualmente de costas para nós, estava perto do valado, do outro lado do caminho, procurando alguma coisa, talvez uma pedra para calçar o trem.

— É o resultado das sob-rodas que tem a estrada — observou o meu amigo. — eixopartido ou alguma roda desembuxada.

Passávamos a este tempo pelo meio dos três vultos a que me re feri, e F... tinha tidoapenas tempo de concluir a frase que proferira, quando o cavalo que eu montava deu repentinamente meia volta rápida, violenta, e caiu de chapa.



(continua...)

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