Por Euclides da Cunha (1907)
Entre os atrativos da Exposição de S. Luiz, um há, interessantíssimo. Não se trata de algum novo motor, ou de uma nova aplicação elétrica. Trata-se de uma pantomina heróica. Imagine-se o drama esquiliano da guerra do Transvaal sobre o palco amplíssimo de um vasto barracão de feira. A terra lendária, com o revesso dos seus alcantis arremessados e a angustura de seus desfiladeiros longos, aparece, à luz das gambiarras, na paisagem morta de lona chapada de largos borrões de tinta variadas e cruas ajustadas sobre pernas de serra e sarrafos.
Ali, desenrola-se a luta nos estouros dos cartuchos de festim, no coruscar das espadas de papelão prateado, nos assaltos aos redutos de papier-maché, e no estavanado, e no tropear tumultuário dos guerreiros de rostos afogueados de vermelhão ou empalidecidos de pós-de-arroz, e ouvidos armados dos apitos do contra-regra...
O ianque aplaude. A ilusão é completa. Vê-se a celeridade nervosa de De Wet, a calma patriarcal de Krueger, a tardeza ameaçadora de Botha... E, vibrando na distensão repentina dos atiradores, ou concentrando-se em cargas violentas e compactas, dispersas em escaramuças ou fundidas, de golpe, no tumulto convulsivo da batalha, as brigadas impetuosíssimas dos boers.
Depois Ladsmith, Kimberley, Magersfontain, todos os lugares refeitos de reminiscência gloriosa.
Por fim, o assalto de Paardeberg e a bravura espantosamente tranqüila de Cronje.
Nesta ocasião a imagem real da campanha é absoluta e o protagonista surge como o não representaria o Fregoli mais protéico e plástico. Porque é o mesmo Cronje, o Cronje autêntico, palpável — com a sua linha magnifica de herói de envergadura atlética, aparecendo aos clarões da ribalta, entre explosões de palmas e gritos entusiásticos que lhe bisam as façanhas.
Um cronista do Figaro, comentando o caso do único modo por que pode ele ser comentado — com um humorismo laivado de melancolia — declarou "que é preciso viver e que desgraçadamente ainda não há incompatibilidade entre a glória e a miséria"...
Não comentemos, nós. Admiremos, absortos, este traço adorável e utilitário dos tempos.
Acabou-se o tipo tradicional do herói transfigurado pela desfortuna; do herói importuno e triste; do herói que pede esmola ou morre escaveirado e tiritante, passando das palhas de uma enxerga para o mármore dos panteões. Não mais Camões e Belisários...
Rompe o herói político, esplendidamente burguês; o herói que faz o trust do ideal; o herói que aluga a glória e que, antes de pedir um historiador, reclama um empresário.
Alevantamento moral...
Não prossigamos. Decididamente Spencer viu, pela última vez, este mundo com o olhar bruxoleante de um velho.
O mestre errou; errou palmarmente, desastrosamente, escandalosamente.
Os tempos que vão passando são, na verdade, admiráveis
CUNHA, Euclides da. Contrastes e confrontos. Rio de Janeiro: Laemmert, 1907.