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#Ensaios#Literatura Brasileira

Temores vãos

Por Euclides da Cunha (1907)

Ali se discutem os três destinos essenciais das Filipinas: a dependência colonial, a independência incompleta, a exemplo do que sucede em Cuba, ou a constituição de um território, prefigurando vindouro Estado confederado. E a conclusão é surpreendente, sobretudo para os que tanto armam olhos e ouvidos aos esgares truanescos e às versas extravagantes do Jingoismo ianque, tão desmoralizado na própria terra onde se agita: Gould Shurmann, embora ressalvando os interesses da sua terra, declara-se, com um desassombro raro, advogado da independência Filipina. A seu parecer ela se impõe feito um corolário inflexível e insofismável de princípios e tradições políticas que a grande República não poderá negar ou iludir sem a renúncia indesculpável "da sua própria história e dos seus próprios ideais."

Convenhamos em que estes dizeres, dada a autoridade oficial de quem os emite, tornam bastante opinável o perigo ianque - a funambulesca Tarasca que tanto desafia por aí o ferretoar dos pontos de admiração das frases patrióticas.

Afinal, ele não existe; como, afinal, não existe o perigo germânico, inexplicável mesmo diante das nossas tentativas para que se ab-rogue completamente o rescrito de Von der Heydt, que proibiu a emigração germânica para o Brasil.

Concluímos que este pavor e este bracejar entre fantasmas são um simples reflexo subjetivo de fraqueza transitória; e que estes perigos — alemão, ianque ou italiano ou ainda outros rompentes ao calor das fantasias, e que se nos figuram estranhos são claros sintomas de um perigo maior, do perigo real e único que está todo dentro das nossas fronteiras e irrompe' numa alucinação da nossa própria vida nacional: o perigo brasileiro.

Este, sim; aí está e se desvenda ao mais incurioso olhar sob infinitos aspectos.

Mas não os consideramos.

Seria uma tarefa crudelíssima.

Teríamos de contemplar, na ordem superior dos nossos destinos, o domínio impertinente da velha tolice metafísica, consistindo em esperarmos tudo das artificiosas e estéreis combinações políticas, olvidando que ao revés de causas elas são meros efeitos dos estados sociais; e aos desastrosos resultados de um código orgânico, que não é a sistematização das condições naturais do nosso progresso, mas uma cópia apressadíssima, onde prepondera um federalismo incompreendido, que é o rompimento da solidariedade nacional

Nos recessos mais íntimos da nossa vida, veríamos desdobrar-se um pecaminoso amor da novidade, que se demasia ao olvido das nossas tradições; o afrouxamento em toda a linha da fiscalização moral de uma opinião publica que se desorganiza de dia a dia, e cada dia se torna mais inapta a conter e corrigir aos que a afrontam, que a escandalizam, e que triunfam; uma situação econômica inexplicavelmente abatida e tombada sobre as maiores e mais fecundas riquezas naturais; e por toda a parte os desfalecimentos das antigas virtudes do trabalho e perseverança que já foram, e ainda o serão, as melhores garantias do nosso destino.

Concluiríamos que os temores são vãos.

Mesmo no balancear com segurança os únicos perigos reais que nos assoberbam, não se distinguiriam males insanáveis — mas a crise transitória da adaptação repentina a um sistema de governo que, mais do que qualquer outro, requer, imperativamente, o influxo ininterrupto e tonificante da moral sobre a política. Por isso mesmo ele nos salvará.

Firmar-se-á, inevitavelmente, uma harmonia salvadora entre os belos atributos da nossa raça e as fórmulas superiores da República, empanados num eclipse momentâneo; e desta mútua reação, deste equilíbrio dinâmico de sentimentos e de princípios, repontarão do mesmo passo as regenerações de um povo e de um regime.

Veremos então, melhor, todo o infundado de receios ou de imaginosas conquistas, que são até uma calúnia e uma condenável afronta a nacionalidades que hoje nos assombram, porque progridem, e que nos ameaçam pelo motivo único de avançarem triunfante e civilizadoramente para o futuro.

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