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#Ensaios#Literatura Brasileira

O ideal americano

Por Euclides da Cunha (1907)

Mas prossigamos. Há identidades mais empolgantes. O impávido moralista repisa logo adiante uma outra novidade velha: firma de modo inflexível a necessidade de um largo americanismo, um forte sentimento. nacional contraposto a um localismo deprimente e dispersivo. Combate às claras — numa lúcida compreensão,. que não possuímos, do verdadeiro regime federal — o maligno espírito de paróquia e esse estreito patriotismo de campanário provincial ou estadual, que subordina a nacionalidade ao bairrismo e retrata, em nosso tempo, o federalismo incoerente da antigüidade grega, das Repúblicas medievais da Itália, e dos retrógrados Estados da Alemanha antes de Bismarck.

Neste lance, aponta ainda uma vez os fatos "abjetos e sangrentos" da América do Sul. E tão desanimador se lhe afigura este vício do regime, que se apressa em lhe denunciar a quase extinção na América do Norte, graças a uma evolução inegável e positiva, porque significa, ali, a passagem de uma forma incoerente e dispersiva a uma forma mais coerente e definida, consoante o preceito elementar do maior pensador da sua raça.

Trata-se como se vê, de um mal que lá está em plena decadência, próximo a extinguir-se, mas que ainda atemoriza; ao passo que entre nós ele surge vigoroso, e se desenvolve e irradia para toda a banda, delineando umas fronteiras ridículas, ou ostentando irritantemente umas questões de limites inclassificáveis, e deixa-nos impassíveis...

Completa-o um outro.

Ao patriotismo diferenciado alia-se, pior, o cosmopolitismo - essa espécie de regime colonial do espírito que transforma o filho de um país num emigrado virtual vivendo, estéril, no ambiente fictício de uma civilização de empréstimo. Mas não há explicar-se a insistência do escritor neste ponto. O americano do norte é um absorvente e um dominador de civilizações. Suplanta-as, transfigura-as, afeiçoa-as ao seu individualismo robusto e ao seu bom senso incomparável; americaniza-as.

Para nós, sim, é que parecem feitas aquelas páginas severas riçadas de repentinos e vivos golpes de ironia - porque entre nós é que se faz mister repetir longamente, e monotonamente mesmo, que mais vale ser um original do que uma cópia, embora esta valha mais do que aquele" e que o ser brasileiro de primeira mão, simplesmente brasileiro, malgrado a modéstia do titulo, "vale cinqüenta vezes mais do que ser a cópia de 2ª classe, ou servil oleografia, de um francês ou de um inglês".

Parafraseando, diríamos: os nossos melhores estadistas, guerreiros, pensadores e dominadores da terra, os que engenharam as melhores leis e as cumpriram, os homens de energia ativa e de coração, que definiram com mais brilho a nossa robustez e o nosso espírito - todos sentiram, pensaram e agiram principalmente como brasileiros; destacam-se, como no passado, de todo destoantes da fisionomia moral de uma época onde o mesmo esboço de um irrequieto e frágil nativismo foi pedir à história do estrangeiro o próprio nome do batismo.

O Ideal Americano não é um livro para os Estados Unidos, é um livro para o Brasil.

Os nossos homens públicos devem — com diurna e noturna mão — versá-lo e decorar-lhe as linhas mais incisivas, como os arquitetos decoram as fórmulas empíricas da resistência dos materiais.

E um compêndio de virilidade social e de honra política incomparável. Traçouo o homem que é o melhor discípulo de Hobbes e de Gunplowicz — um fanático da força, um tenaz propagandista do valor sobre todos os aspectos, que vai da simples coragem física ao estoicismo mais complexo.

Daí a sua utilidade, não nos iludamos. Na pressão atual da vida contemporânea, a expansão irresistível das nacionalidades deriva-se, como a de todas as forças naturais, segundo as linhas de menor resistência. A absorção de Marrocos ou do Egito, ou de qualquer urna outra raça incompetente, é antes de tudo um fenômeno natural, e, diante dele, conforme insinua a ironia aterradora de Mahan, o falar-se no Direito é extravagância idêntica à quem procura discutir ou indagar sobre a moralidade de um terremoto.

É o darwinismo rudemente aplicado à vida das nações.

Roosevelt compara de modo pinturesco essa concorrência formidável a um vasto e estupendo football on the green: o jogo deve ser claro, franco, enérgico e decisivo; nada de desvios, nada de tortuosidades, nada de receios, porque o triunfo é obrigatoriamente do lutador que hits tle line hard!

Aprendamos, enquanto é tempo, esta admirável lição de mestre.

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