Por Raul Pompéia (1883)
Era o carpinteiro Matias, português de nascimento, e, como sabe o leitor, sócio de Eduardo. Media com o compasso uma tábua que ia serrar, no momento em que ouviu a estranha frase da tia do sócio. Ergueu a cabeça, descansando o compasso sobre a tábua, e, com a sua cara pálida, de nariz cortante, queixo pequeno e olhos azuis, atirou a Juliana uma risada tossida, implicante.
A velha incomodou-se com isso. Carregou os sobrolhos e, sem mais nem menos, gritou-lhe asperamente:
- De que ri-se?...
Matias começou a serrar a tábua, sem deixar de rir.
A respeitável Juliana fuzilava-o com o olhar. Em seguida curvou-se para o sobrinho e segredou-lhe algumas palavras. Murmurava apenas, mas energicamente, vivamente.
Eduardo ergueu o rosto. Estava transformado. Havia-lhe no semblante um ar de espanto e mesmo certa alegria tímida.
Era como uma fita de céu claro no fundo de um quadro de tempestade.
Esteve alguns segundos absorto, os olhos cravados na tia.
Na sua atitude, parecia apreender as notas de uma harmonia afastada. Mostrava reanimarse. De súbito, exclamou:
- Como sabe, minha tia?...
- O meu moleque viu...
- Será possível?...
- ... Viu...
Ah! se isto é verdade!
- ... O moleque viu...
O carpinteiro Matias deixara o serrote encravado na tábua e, com um sorriso esquisito, olhava para os dous parentes. Por vezes, os lábios se lhe encresparam, como se ele fosse falar. Hesitou, porém. Afinal, não se contendo mais, adoçou a voz quanto pôde e perguntou:
- Então acharam a Vevinha? Quem furtou?...
- Quem furtou?... Eh.... Sr. Matias... disse Juliana a modo de ironia.
- Por que fala assim, D. Juliana?... Quem a ouvisse diria que fui eu o gatuno. Venha ver amenina aqui no meu bolso...
- Não graceje, Sr. Matias! não me obrigue a soltar a língua...
O senhor mostra o bolso, mas não mostra a... bolsa...
O trocadilho impressionou ao carpinteiro. No seu canto escuro, Matias empalideceu e, para disfarçar, tomou de novo o serrote e pôs-se a trabalhar, sorrindo sem vontade.
Juliana dirigiu o olhar para o sócio do sobrinho, piscando muito, visivelmente enraivecida com o sujeito. Matias não ousava levantar a cara. Sentia o olhar da velha como o dardo de um maçarico, faiscante, ardente, incomodativo.
- Como diabo, dizia de si para si, pôde esta coruja saber?...
E serrava, serrava, para não dar a conhecer o que lhe ia pelo espírito.
Eduardo veio-lhe em socorro. Dirigiu a palavra à tia:
- ... Mas, tia Juliana, disse, eles partiram há três dias...
- Ah, Sr. Matias!... não sei, falava a velha ao carpinteiro, não sei como o Eduardo o atura!... Olhe que o senhor!...
- Há três dias... repetia o Eduardo, meditando, com a mão sobre o braço da tia, para chamarlhe a atenção..
- Como?... perguntou-lhe esta.
- Não sei como é possível... Eles não estão aqui há... uns três dias já...
- O moleque viu, já ....... reconheceu-os... Eram dons: o Manuel e aquele negro o... Pedro... Omoleque os conhece muito... O tratante não saia do circo... ensaios, espetáculos...
- Ah! exclamou o Matias, os gatunos são da companhia do Rosas!.. Ah! ah!...
- Olhe, Sr. Matias, o senhor... Já não me contenho... ameaçou Juliana...
- Tenha paciência, minha cara, há de concordar... ah! ah! Ora uma companhia de ginásticosfurtando uma criança, fraca, imprestável!...
Eduardo refletia, sem dar ouvidos à discussão dos outros.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. Violeta. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7633 . Acesso em: 6 abr. 2026.