Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Maria Dantas fundou a capela de que se trata, à sua custa, em terras próprias, e parte do conselho, e por escritura de 6 de junho de 1655, doou tudo à religião do Carmo para se instituir ali um convento de religiosos recoletos da mesma ordem, com a condição de se lhe dar sepultura na capela-mor, a seus filhos, herdeiros e sucessores, e sob a pensão de cinqüenta missas anualmente por sua alma e pela de seu marido Miguel Carvalho de Souto, o que aceitou aquela religião. Mas nem se instituiu o convento, nem se sabe o motivo da provável desistência que depois faria a religião do Carmo de tal doação. O que é positivo é que a capela e as terras passaram para os capuchos franceses e em seguida entraram para os bens da mitra, ficando a defunta Maria Dantas sem as sepulturas da capela-mor para os seus herdeiros e descendentes, sem a pensão das cinqüenta missas por sua alma e pela de seu marido, e podendo lá da eternidade repetir com Virgílio o mil vezes verdadeiro sic vos nom vobis.
Mas o prelado Almada e a Câmara resolveram a questão. Em falta de recoletos carmelitas passou a capela aos capuchos franceses, que tão nas boas graças da corte se achavam que, pelo alvará de 11 de outubro de 1679, foram declarados sob a proteção real.
Começavam estes religiosos as suas missões e trabalhos de conversão de índios, entrando pelos sertões, quando, mais cedo do que pensavam, mudou o vento da fortuna e tornou-se para eles de favorável em contrário.
O Rei D. Pedro II não pensou como os seus antecessores. Persuadiu-se de que não podiam convir a Portugal missões francesas no Brasil, e além de proibir o ingresso de religiosos estrangeiros nas conquistas ultramarinas e na Índia, determinou que os existentes nessas províncias se retirassem para a Europa.
E assim desapareceram do Brasil os capuchos franceses.
Seguindo os capuchinhos franceses, tinham chegado também alguns italianos ao Rio de Janeiro, e, sem dúvida, já aqui estavam antes de 1681, pois que uma ordem de 9 de dezembro desse ano lhes mandou dar pela fazenda real 80$000 anualmente para aumento das aldeações dos índios de Campos dos Goitacazes; e parece que não foram compreendidos na proibição que fechou a porta aos religiosos franceses, porque continuaram a exercer o seu ministério em domínios de Portugal.
O Rei D. Pedro II sabia bem quais eram os hóspedes que podiam ser incômodos e até perigosos.
Em 1720, os capuchinhos italianos Frei Antônio de Perúsia e Frei Jerônimo de Monte Real, saídos da Itália para a missão de S. Tomé, arribaram ao Rio de Janeiro, onde o Governador Aires de Saldanha de Albuquerque os deteve em benefício das missões dos índios; e para sua residência lhes deu a mesma capela da Senhora da Conceição, que pertencia já ao bispo, mas que podia ser por eles ocupada, visto como se achava então vaga pelo falecimento do Bispo D. Francisco de S. Jerônimo.
Aconteceu, porém, aos capuchinhos italianos o que acontecera aos capuchos franciscanos que andaram por algum tempo sem aquentar lugar, e mudando de casa como os pássaros de ninho.
Em 1721, foram os capuchinhos italianos hospedados na Conceição. Mas, em 1725, chegando o sucessor do bispado, viram-se na rua, e tiveram de acomodar-se em outra ermida do mesmo título, fundada por Francisco de Seixas da França. Essa ermida, porém, que é a igreja do Hospício, foi comprada pelos chismáticos terceiros franciscanos, e nela se instituiu uma irmandade de homens pardos, tendo os capuchinhos de procurar novo abrigo no fim de poucos meses.
O bispo acudiu aos religiosos italianos e abriu-lhes as portas da ermida de N. S. do Desterro (depois convento de Santa Teresa). Mas, ou por que estivesse a casa muito arruinada, ou por outro qualquer motivo, apenas se demoraram nela os capuchinhos até o ano de 1739.
Ofereceu-se a esses religiosos a igreja e casa do recolhimento da Ajuda, havendo para isso determinação explícita na resolução régia de 9 de abril de 1738. Ignoro qual o destino que pretendiam dar às freiras. Estou, porém, seguro de que respeitariam os seus votos, e de que não data dessa época aquela cantiga popular e um pouco livre, que diz assim em uma de suas coplas:
Se as freiras d’Ajuda
Se vissem na rua, Era um Deus nos acuda Na venda.
Não sei, repito. Sei, porém, que o povo não gostou do oferecimento, e murmurou, reprovando a resolução régia, e que os capuchinhos italianos, mais prudentes que o rei, renunciaram judiciosamente o benefício.
Por ordem de 23 de outubro de 1739, mandaram-se então tomar e pagar três moradas de casas térreas no sítio vizinho e fronteiro do hospício de Jerusalém e N. S. da Oliveira, para residência dos religiosos barbadinhos italianos, sob a condição de em tempo algum se formar convento, isto é, de poderem os missionários capuchos apropriar-se daquele hospício e sua competente cerca, que também se fez.
Em 1710, efetuou-se a mudança dos barbadinhos para essa nova
casa e a rua onde ela se erigira tomou dos religiosos o nome dos Barbonos, que
ainda hoje conserva.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.