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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

A Real Academia Militar tornou-se depois da nossa independência em Escola Militar, e ficou sempre ocupando o mesmo edifício, que atualmente oferece as melhores condições e vastos cômodos para o mister a que foi por último destinado.

Nos trabalhos que em 1810 e 1811 foram sendo executados no edifício para o estabelecimento da Real Academia Militar, aproveitaram-se as madeiras que se tinham guardado, e tratando-se logo depois de edificar um bom teatro na capital, e lançando-se os fundamentos dele no Campo dos Ciganos, posteriormente chamado largo do Rocio, e enfim, praça da Constituição, empregou-se nesta obra não só toda a pedra que era destinada para a conclusão da igreja, mas ainda a das duas torres, que já estavam muito adiantadas, e que se desmoronaram.

Serviram, pois, as pedras da mal afortunada Sé nova para os imensos alicerces e gigantescas paredes do teatro, e por isso mesmo, muitos velhos daquele tempo severos respeitadores de quanto se referia a coisas sagradas, agouraram mal do futuro daquele edifício profano, e como se o futuro quisesse justificar tais agouros, já três vezes foi esse teatro devorado pelas chamas. Mas nem mesmo com três incêndios se abalaram suas grossas paredes.

Eram e são as pedras da Sé nova, contra as quais nada tem podido o fogo destruidor.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Passeio suplementa

I

NATURALMENTE os meus companheiros de passeio entenderam que, com o precedente, tinha terminado a série dos que eu destinei à Sé do Rio de Janeiro, e com efeito, entendendo assim, raciocinaram com todo o rigor da lógica. Mas a lógica hoje em dia não governa o mundo. Agora quem mais acerta é aquele que, estabelecidos certos princípios, conclui o que está em oposição aos princípios expostos.

Por conseqüência ainda não acabamos com os nossos passeios que têm por título a Sé do Rio de Janeiro. Como, porém, o absurdo é sempre repugnante, é de regra que se apele para o sofisma, que é o padrinho constante do absurdo e do abuso.

O sofisma vive sempre encapotado, e de ordinário encapota-se em nomes mais ou menos bonitos ou retumbantes.

Às vezes, uma reforma da Constituição chama-se interpretação. É o sofisma encapotado no nome interpretação.

E do mesmo modo e com uma capa semelhante, a cadeia chama-se custódia.

A prisão arbitrária, averiguação policial.

Um atentado contra a nação, salus populi.

O esbanjamento dos dinheiros públicos, despesas secretas.

Uma perpétua suspensão de garantias, polícia.

A ditadura nas finanças do Estado, crédito suplementar.

A compressão e o terror do povo, ordem.

A desordem no orçamento da receita e despesa do Estado, artigos aditivos do mesmo orçamento.

E assim por diante.

O sofisma está, portanto, na moda, e eu que resolvi apresentar-me hoje à moda, chamarei a este e a um próximo passeio – Passeios suplementares.

O meu último passeio era, pelo modo por que o concluí, o último que devia ter o título de Sé do Rio de Janeiro. Mas, obrigado por fatos recentes a voltar à igreja de S. Sebastião do Castelo ou à Sé velha, não quero dar o meu braço a torcer, e vou de novo passear à Sé velha, ajuntando a dois passeios que farei a ela o adjetivo – suplementares.

É um sofisma como outro qualquer.

Subamos, pois, de novo ao morro do Castelo. Subamos pela ladeira do sofisma. Muitos têm subido por ela a outras alturas. Vamos outra vez visitar a antiga igreja de S. Sebastião, e visto que aí encontramos hospedados os religiosos barbadinhos italianos, vou começar antes de tudo por dizer-vos quando e como foi a entrada desses religiosos no Brasil, e especialmente no Rio de Janeiro.

Eu principio.

Não sei por que o Rei D. João IV entendeu que não eram suficientes os padres jesuítas para desempenhar a tarefa das missões e conversão dos índios do Brasil. O certo é que, a instâncias dele e com faculdade da congregação Propaganda Fide, vieram de França para o nosso país alguns religiosos da ordem capucha encarregados daquele mister, e que dois dos que se destinaram para a capitania do Rio de Janeiro chegaram a esta cidade em 1659, segundo informa Monsenhor Pizarro, ou em 1650, pouco mais ou menos, como querem outros, e foram hospedados na casa contígua à capela da Senhora da Conceição, onde atualmente e desde muito residem os bispos diocesanos.

Consta de uma escritura celebrada na nota de 4 de janeiro de 1667, a 24 de janeiro de 1669, fl. 106 v., que o prelado administrador da diocese Manuel de Sousa e Almada doara essa capela da Senhora da Conceição, e a Câmara as terras respectivas, aos religiosos capuchinhos para sua habitação. Ignoro, porém, em que direito se fundaram o prelado e a Câmara para se fazerem doadores.

(continua...)

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