Por Eça de Queirós (1888)
N'uma d'essas manhãs, Carlos, que ficára até tarde com Maria, e depois no seu delgado casebre mal pudera dormir com um temporal de vento e agua desencadeado de madrugada - ergueu-se ás nove horas, veio á Toca. As janellas do quarto de Maria conservavam-se ainda cerradas; a manhã clareára; a quinta lavada, meio despida, no ar fino e azul, tinha uma linda e silenciosa graça d'inverno. Carlos passeava, olhando os vasos onde os chrysanthemos floriam, quando retiniu a sineta do portão. Era o toque do carteiro. Justamente elle escrevera dias antes ao Cruges, perguntando se estaria desoccupado para os primeiros frios de dezembro o andar da rua de S. Francisco: e, esperando carta do maestro, foi abrir, acompanhado por Niniche. Mas o correio, n'essa manhã, consistia apenas n'uma carta do Ega e dois numeros de jornal cintados - um para elle, outro para «Madame Castro Gomes, na quinta do snr. Craft, aos Olivaes».
Caminhando sob as acacias, Carlos abriu a carta do Ega. Era da vespera, com a data «á noite, á pressa». E dizia: «- Lê, n'esse trapo que te «mando, esse superior pedaço de prosa que lembra Tacito. Mas não te «assustes; eu supprimi, mediante pecunia, toda a tiragem, com excepção «de dois numeros mais que foram, um para a Toca, outro (oh «logica suprema dos habitos constitucionaes!)
para o Paço, para o chefe do «Estado!... Mas esse mesmo não chegará ao seu destino. Em todo o caso «desconfio de que esgôto sahiu esse enxurro e precisamos providenciar! «Vem já! Espero-te até ás duas. E, como Iago dizia a Cassio - mette dinheiro na bolsa.»
Inquieto, Carlos descintou o jornal. Chamava-se a Corneta do Diabo: e na impressão, no papel, na abundancia dos italicos, no typo gasto, todo elle revelava immundicie e malandrice. Logo na primeira pagina duas cruzes a lapis marcavam um artigo que Carlos,
n'um relance, viu salpicado com o seu nome. E leu isto: «- Ora viva, sô Maia! «Então já se não vai ao consultorio, nem se vêem os doentes do bairro, «sô janota? - Esta piada era botada no Chiado, á porta da «Havaneza, ao Maia, ao Maia dos cavallos inglezes, um
tal Maia do «Ramalhete, que abarrota por ahi de catita; e o pai Paulino que «tem olho e que passava n'essa occasião ouviu a seguinte «cornetada: - É que o sô Maia acha que é mais «quente viver nas fraldas d'uma brazileira casada, que nem é «brazileira nem é casada, e a quem o papalvo poz casa, ahi para o lado dos «Olivaes, para estar ao fresco! Sempre os ha n'este mundo!... Pensa «o homem que botou conquista; e cá a rapaziada de gosto ri-se, porque o «que a gaja lhe quer não são os lindos olhos, são as lindas louras... «O simplorio, que bate ahi pilecas bifes, que nem que fosse o «marquez, o verdadeiro Marquez, imaginava que se estava «abiscoitando com uma senhora do chic, e do boulevard de Paris, e «casada, e titular!... E no fim (não, esta é para a gente deixar estoirar o «bandulho a rir!) no fim descobre-se que a typa era uma cocotte «safada, que trouxe para ahi um brazileiro já farto d'ella para a «passar cá, aos bellos lusitanos... E cahiu a espiga ao Maia! Pobre palerma! «Ainda assim o sô Maia só apanhou os restos d'outro, porque a «typa já antes d'elle se enfeitar, tinha pandegado á larga, «ahi para a rua de S. Francisco com um rapaz da fina, que se safou «tambem, porque cá como nós só aprecia a bella hespanhola. Mas «não obsta a que o sô Maia seja traste! - Pois se assim é, dissemos «nós, cautelinha, porque o diabo cá tem a sua Corneta preparada «para cornetear por esse mundo as façanhas do Maia das «conquistas. Ora viva,sô Maia!»
Carlos ficou immovel entre as acacias, com o jornal na mão, no espanto furioso e mudo d'um homem que subitamente recebe na face uma grossa chapada de lôdo! Não era a cólera de vêr o seu amor assim aviltado na publicidade chula d'um jornal sordido: era o horror de sentir aquellas phrases em calão, pandilhas, afadistadas, como só Lisboa as póde crear, pingando fetidamente, á maneira de sebo, sobre si, sobre Maria, sobre o esplendor da sua paixão... Sentia-se todo emporcalhado. E uma unica idéa surgiu através da sua confusão matar o bruto que escrevera aquillo.
Matal-o! Ega sustára a tiragem da folha, Ega pois conhecia o folliculario. Nada importava que aquelles numeros, que tinha na mão, fossem os unicos impressos. Recebera lama na face. Que a injuria fosse espalhada nas praças n'uma profusa publicidade ou lhe fosse atirada só a elle escondidamente n'um papel unico, era igual... Quem tanto ousára tinha de cahir, esmagado!
Decidiu ir logo ao Ramalhete. O Domingos à janella da cozinha areava pratas, assobiando. Mas quando Carlos lhe fallou de ir buscar um calhambeque aos Olivaes, o bom Domingos consultou o relogio:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.