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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

Carlos ria, preparando n'uma travessa o ananaz com sumo de laranja e vinho da Madeira. Mas Maria não queria que elle risse. A idéa do Ega parecia-lhe superior, inspirada n'um alto dever. Quasi tinha remorsos, dizia ella, d'aquella preguiça de Carlos. E agora, que ia ser cerrado de affeição serena, queria-o vêr trabalhar, mostrar-se, dominar... - Com effeito, disse o Ega recostado e sorrindo, a era do romance findou. E agora...

Mas o Domingos servia o ananaz. E o Ega provou e rompeu em clamores de enthusiasmo. Oh que maravilha! Oh que delicia!

- Como fazes tu isto? Com Madeira...

- E genio! exclamou Carlos. Delicioso, não é verdade? Ora digam-me se tudo o que eu pudesse fazer pela civilisação valeria este prato de ananaz! É para estas coisas que eu vivo! Eu não nasci para fazer civilisação... - Nasceste, acudiu o Ega, para colher as flôres d'essa planta da civilisação que a multidão rega com o seu suor! No fundo tambem eu, menino!

Não, não! Maria não queria que fallassem assim!

- Esses ditos estragam tudo. E o snr. Ega, em logar de corromper Carlos, devia inspiral-o...

Ega protestou requebrando o olho, já languido. Se Carlos necessitava uma musa inspiradota e benefica não podia ser elle, bicho com barbas e bacharel em leis... A musa estava toute trouvée!

- Ah, com effeito!... Quantas paginas bellas, quantas nobres idéas se náo podem produzir n'um paraiso d'estes!...

E o seu gesto molle e acariciador indicava a Toca, a quietação dos arvoredos, a belleza de Maria. Depois na sala, emquanto Maria tocava um nocturno de Chopin e Carlos e elle acabavam os charutos á porta do jardim vendo nascer a lua - Ega declarou que, desde o

começo do jantar, estava com idéas de casar!... Realmente não havia nada como o casamento, o interior, o ninho...

- Quando penso, menino, murmurou elle mordendo sombriamente o charuto, que quasi todo um anno da minha vida foi dado áquella israelita devassa que gosta de levar bordoada...

- Que faz ella em Cintra? perguntou Carlos.

- Ensopa-se na crapula. Não ha a menor duvida que dá todo o seu coração ao Damaso... Tu sabes o que n'estes casos significa o termo coracão... Viste já immundicie igual? É simplesmente obscena!

- E tu adóral-a, disse Carlos.

O outro não respondeu. Depois, dentro, n'um odio repentino da bohemia e do romantismo, entoou louvores sonoros á família, ao trabalho, aos altos deveres humanos - bebendo copinhos de cognac. Á meia noite, ao sahir, tropeçou duas vezes na rua d'acacias, já vago, citando Proudhon. E quando Carlos o ajudou a subir para a victoria, que elle quiz descoberta para ir communicando com a lua, Ega ainda lhe agarrou o braço para lhe fallar da Revista, d'um forte vento de espiritualidade e de virtude viril que se devia fazer soprar sobre o paiz... Por fim, já estirado no assento, tirando o chapéo á aragem da noite:

- E outra coisa, Carlinhos. Vê se me arranjas a ingleza... Ha vicios deliciosos n'aquellas pestanas baixas... Vê se m'a arranjas... Vá lá, bate lá, cocheiro! Caramba, que belleza de noite!

Carlos ficára encantado com este primeiro jantar d'amizade na Toca. Elle tencionava não apresentar Maria aos seus intimos senão depois de casado e á volta de Italia. Mas agora a «união legal» estava já no seu pensamento adiada, remota, quasi dispersa no vago.

Como dizia o Ega, devia esperar, deixar-se ir... E no emtanto, Maria e elle não poderiam isolar-se alli todo um longo inverno, sem o calor sociavel d'alguns amigos em redor. Por isso uma manhã, encontrando o Cruges, que fôra o visinho de Maria e outr'ora lhe dava noticias da «lady ingleza», pediu-lhe para vir jantar á Toca no domingo.

O maestro appareceu n'uma tipóia, á tardinha, de laço branco e de casaca: e os fatos claros de campo com que encontrou Carlos e Ega começaram logo a enchel-o de mal-estar. Toda a mulher, além das Lolas e Conchas, o atarantava, o emmudecia: Maria, «com o

(continua...)

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