Por Eça de Queirós (1888)
Depois Carlos levava o avô a casa da sua boa amiga, que conhecera em Italia, M. de Mac-Gren. Para o prender logo lá estavam os encantos de Maria, todas as graças d'um interior delicado e sério, jantarinhos perfeitos, idéas justas, Chopin, Beethoven, etc. E, para completar a conquista de quem tão enternecidamente adorava crianças, lá estava Rosa... Emfim, quando o avô estivesse namorado de Maria, da pequena, de tudo - elle, uma manhã, dizia-lhe francamente: «Esta creatura superior e adoravel teve uma quéda no seu passado; mas eu casei com ella; e, sendo tal como é, não fiz bem, apesar de tudo, em a escolher para minha esposa?» E o avô, perante esta terrível irremediabilidade do facto consummado, com toda a sua indulgencia de velho enternecido a defender Maria - seria o primeiro a pensar que, se esse casamento não era o melhor segundo as regras do mundo, era decerto o melhor segundo os interesses do coração...
- Pois não te parece, Ega?
Ega, absorvido, sacudia a cinza do charuto. E pensava que Carlos, em resumo, adoptára para com o avô a complicada combinação que Maria Eduarda tentára para com elle - e imitava sem o sentir os subtis raciocinios d'ella.
- E acabou-se, continuava Carlos. Se elle na sua indulgencia aceitar tudo, bravo! dá-se uma grande festa no Ramalhete... Senão, foi-se! passaremos a viver cada um para seu lado, fazendo ambos prevalecer a superioridade de duas coisas excellentes: o avô as tradições do sangue, eu os direitos do coração.
E, vendo o Ega ainda silencioso:
- Que te parece? Dize lá. Tu andas tão falto de idéas, homem!
O outro sacudiu a cabeça, como despertando.
- Queres que te diga o que me parece, com franqueza? Que diabo, nós somos dois homens fallando como homens!... Então aqui está: teu avô tem quasi oitenta annos, tu tens vinte e sete ou o quer que seja... É doloroso dizel-o, ninguem o diz com mais dôr que eu,
mas teu avô ha de morrer... Pois bem, espera até lá. Não cases. Suppõe que ella tem um pae muito velho, teimoso e caturra, que detesta o snr. Carlos da Maia e a sua barba em bico. Espera; continua a vir á Toca, na tipoia do Mulato; e deixa teu avô acabar a sua velhice calma, sem desillusões e sem desgostos...
Carlos torcia o bigode, mudo, enterrado no fundo da victoria. Nunca, n'esses dias de inquietação, lhe acudira idéa tão sensata, tão facil! Sim, era isso, esperar! Que melhor dever do que poupar ao pobre avô toda a dôr?... Maria de certo, como mulher, estava desejando anciosamente a conversão do amante no marido pelo laço d'estola que tudo purifica e nenhuma força desata. Mas ella mesma preferiria uma consagração legal - que não fosse assim precipitada, dissimulada... Depois, tão recta e generosa, comprehenderia bem a obrigação suprema de não mortificar aquelle santo velho. De resto, não conhecia ella a sua lealdade solida e pura como um diamante? Recebera a sua palavra: desde esse momento estavam casados, não diante do sacrario e nos registos da sacristia – mas diante da honra e na inabalavel communhão dos seus corações...
- Tens razão! gritou por fim, batendo no joelho do Ega. Tens immensamente razão! Essa idéa é genial!
Devo esperar... E emquanto espero?...
- Como, emquanto esperas? acudiu Ega, rindo. Que diabo! Isso não é commigo! E mais sério:
- Emquanto esperas tens esse metal vil que faz a existencia nobre. Installas tua mulher, porque desde hoje é tua mulher, aqui nos Olivaes ou n'outro sitio, com o gosto, o conforto e a dignidade que competem a tua mulher... E deixas-te ir! Nada impede que façaes
essa viagem nupcial á Italia... Voltas, continúas a fumar a tua cigarette e a deixar-te ir. Este é o bom senso: é assim que pensaria o grande Sancho Pansa... Que diabo tens tu n'aquelle embrulho que cheira tão bem?
- Um ananaz... Pois é isso, querido: esperar, deixar-me ir. É uma idéa!
Uma idéa! e a mais grata ao temperamento de Carlos. Para que iria com effeito enredar-se n'uma meada de amarguras domesticas, por um excesso de cavalheirismo romantico? Maria confiava n'elle; era rico, era moço; o mundo abria-se ante elles facil e cheio de indulgencias. Não tinha senão a deixar-se ir.
- Tens razão, Ega ! E Maria é a primeira a achar isto cheio de senso e d'opportunismo. Eu tenho uma certa pena em adiar a installação da minha vida e do meu home. Mas, acabou-se! Antes de tudo que o avô seja feliz... E para celebrar o advento d'esta idéa,
Deus queira que Maria nos tenha um bom jantar!
Agora, ao aproximar-se da Toca, Ega ia receando o primeiro encontro com Maria Eduarda. Incommodava-o esse enleio, esse rubor que ella não poderia occultar - certa que, como confidente de Carlos, elle conhecia a sua vida, as suas miserias, as suas relações
com Castro Gomes. Por isso hesitára em vir á Toca. Mas tambem, não apparecer mais a Maria Eduarda seria marcar com um relevo quasi offensivo o desejo caridoso de não molestar o seu pudor... Por isso decidira «dar o mergulho d'uma vez». Quem, senão elle,
deveria ser o mais apressado em estender a mão á noiva de Carlos?... Além d'isso tinha uma infinita curiosidade de vêr no seu interior, á sua mesa, essa creatura tão bella, com a sua graça nobre de Deusa moderna! Mas saltou da victoria muito embaraçado.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.