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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

É mais do que ridículo, é desagradável o ver-se em uma capital como a nossa um preto sentado em um banquinho no meio da rua, com a cara entregue às mãos de outro que a ensaboa e barbeia como se estivesse na sua loja, e logo adiante um outro, com a boca na ponta de uma ventosa de chifre, a chupar o sangue de um padecente que se entrega a essa operação, tendo por leito a calçada da rua; e pior que tudo é cada canto da igreja transformado em latrina.

A Câmara Municipal e a polícia têm obrigação de pôr um termo a semelhantes abusos.

A igreja do Rosário, tal como se acha, e as cenas que se observam nas ruas que a cercam, são senões muito feios da cidade do Rio de Janeiro, que tem direito a ser muito bonita, e deve considerar-se uma formosa moça que tem por modistas e joalheiras a sua Câmara Municipal e a sua polícia.

Todavia, não tendo nunca sido um belo templo, não sendo recomendável por obra alguma de arte, nem pela magnificência de seus altares, nem pela riqueza de seus ornatos, a igreja da Rosário já teve o seu tempo de brilhantes e esplêndidas festas.

Não há um só dos nossos velhos, e menos se encontrará uma só das nossas velhas que não se lembre com saudades das famosas festas do Rosário.

Assim como na festa do Espírito Santo há um imperador, nas do Rosário havia rei e rainha, com a sua competente corte, e cuja realeza durava um ano, como a dos imperadores do Espírito Santo.

O negro e a negra, rei e rainha da festa do Rosário, apresentavam-se trajando riquíssimos vestidos bordados de ouro e prata, e imitando o mais possível as vestes reais dos antigos tempos. A sua corte enfeitava-se às vezes extravagantemente, mas sempre com grande luxo. O aparato pareceria hoje ridículo, e era então, não direi imponente, porém muito interessante.

O cortejo real era precedido de uma música especial, e, além da solenidade religiosa, havia danças na rua, em que tomava parte a realeza improvisada, e os pretos do Rosário batiam palma, vendo bailar a seu modo o rei e a rainha da festa.

Este costume do passado observava-se não só na cidade do Rio de Janeiro, mas também em diversas freguesias do interior, onde as irmandades do Rosário eram principalmente formadas e sustentadas por negros escravos cujos senhores prestavam-se a fazer por eles as maiores despesas da festa, e faziam garbo de gastar avultadas quantias para vestir com todo o luxo o rei e a rainha do Rosário.

Esse tempo já lá vai. A realeza do Rosário acabou e os imperadores do Espírito Santo dão-nos hoje apenas muito fraca idéia do que ela foi.

Nas lembranças do passado da igreja do Rosário tem o consistório respectivo justos motivos de ufania, porque foi em outro tempo um lugar de escolha, um seio ardente onde palpitaram e donde saíram manifestações de idéias liberais.

Logo depois da chegada da família real portuguesa ao Rio de Janeiro, o senado da Câmara desta cidade estabeleceu o seu paço no consistório do Rosário, e foi aí que essa instituição profundamente popular tomou todas as patrióticas e gloriosas resoluções que precederam e apressaram a proclamação da independência do Brasil.

Foi do consistório da igreja do Rosário que saiu o senado da Câmara com o seu estandarte em frente, no dia 9 de janeiro de 1822, para apresentar ao príncipe regente D. Pedro a representação em que o povo pedia a este que, desobedecendo às ordens terminantes da corte de Lisboa, ficasse no Brasil.

Foi perto e quase junto desse consistório que, tendo a câmara voltado para o seu paço, no mesmo dia 9 de janeiro, com a resposta revolucionária e patriótica do príncipe, subiu a um monte de pedras que ali havia um dos filhos do ilustre capitão-mor José Joaquim da Rocha, o Sr. Inocêncio da Rocha Maciel, atual contador da Câmara Municipal, e em alta voz leu à multidão de povo entusiasmado o primeiro número da Reclamação do Brasil, periódico que acabava de sair à luz e de ser distribuído, e cujo redator foi o venerando José da Silva Lisboa, posteriormente visconde de Cairu, e que então era deputado da junta do comércio e um dos diretores da Imprensa Régia.

Foi do consistório da igreja do Rosário que, ao chegar ao Rio de Janeiro a notícia de que o governo de Portugal notificara aos seus agentes nos portos estrangeiros que tratassem de opor-se eficazmente à remessa de armas e munições bélicas para o Brasil, saiu o senado da Câmara no dia 13 de maio de 1822, e foi pedir, em nome do povo, ao príncipe regente D. Pedro que aceitasse o título e o nobre empenho de defensor perpétuo do Brasil, solene voto que foi logo satisfeito.

Foi ainda do mesmo consistório que saiu outra vez o senado da Câmara, no dia 23 do mesmo mês e ano, e dirigiu-se ao príncipe regente, requerendo a convocação de uma assembléia legislativa brasileira, pedido a que atendeu o príncipe depois de ouvir o seu Ministério e os procuradores das províncias que se achavam no Rio de Janeiro.

(continua...)

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