Por Bernardo Guimarães (1872)
Ao apertar na despedida a mão desta, sentiu que estava gelada, e que a agitava um tremor convulso, que ela procurou disfarçar retirando-a prontamente. Eduardo, como fica dito, sentia por ela a mais viva e terna simpatia; compungiu-se dentro da alma, e não pôde conter as lágrimas que lhe rolavam pelas faces. Paulina as viu e não pôde chorar, porque a angústia lhe havia secado a fonte das lágrimas.
Da janela de seu quarto ela viu Eduardo sumir-se além das últimas colinas. Nesse momento os ouvidos lhe zuniram, e seus olhos se escureceram.
Pareceu-lhe que o túmulo a devorava em vida, e que sua alma se afogava nas trevas da noite eterna.
Capítulo VII
O casamento
Era uma bonita e radiante tarde de sábado.
A Vila Franca do Imperador, linda e risonha povoação da província de S. Paulo, – como que se espanejava alegre e faceira em cima de sua colina aos últimos raios do sol de dezembro.
Era véspera do dia de descanso para os que verdadeiramente trabalham, de prazer para os patuscos e folgazões, missa e rezas para os padres e devotos.
Na verdade descansa-se, reza-se e diverte-se muito em todos os domingos. Mas as tardes e noites de sábado sabem muito mais do que as de domingo. Naquelas espera-se pela festa, o que dizem ser o melhor dela; nesta acaba-se com ela, o que não deixa de ser triste.
Ninguém deita-se da cama mais aborrecido em uma noite de domingo do que o estudante, o lente, o empregado público, o jornaleiro, enfim do que todo mundo – católico, bem entendido, – à exceção do soldado, do escravo e outros miseráveis, para os quais não há domingo nem dia santo, e do imperador, do duque, do frade e outros, para os quais todo o dia é dia santo.
Eis a razão por que se escolhem de ordinário as tardes e as noites de sábado para os casamentos, batizados, bailes, concertos, espetáculos, enfim para tudo quanto é regozijo.
No largo da matriz da Franca havia mais um motivo para a efervescência da alegria e do prazer.
Celebrava-se nesse dia com muita pompa e arrojo o casamento de uma moça pertencente a uma das mais ricas e distintas famílias da Franca. Os sinos repicavam alegre e incessantemente entre as mãos de encarniçados rapazes; uma imensidade de foguetes e girândolas estouravam nos ares, e toldavam a atmosfera com uma abóbada de fogo e fumo. À porta da igreja restrugia uma numerosa banda de música. Na igreja, pelo adro, pelas ruas não se via senão gente alegre, alardeando asseados e garridos trajes domingueiros, pois em toda a vila não ficou uma pessoa, que pusesse gravata ao pescoço, que não fosse convidada. Parecia aquele noivado uma festa pública, e fazia recordar as bodas de Gamacho.
A moça era formosa por sua rara beleza, e fora o alvo cobiçado e disputado por muitos e guapos pretendentes de fora e do lugar. Era filha do major José Ferreira, um dos mais abastados fazendeiros de toda a comarca e chamava-se Lucinda.
Pelo nome e pelos predicados o leitor já terá atinado que a noiva não era mais nem menos senão a namorada, a senhora dos pensamentos do jovem muladeiro Eduardo, que vimos quase papado por uma onça na fazenda de Joaquim Ribeiro, querendo salvar-lhe a filha. Adivinhou e sem dúvida terá também adivinhado que o noivo era o próprio Eduardo, e nada mais natural; eram dois amantes firmes, que há muito tempo se queriam, e dignos um do outro; dois belos e interessantes jovens, para os quais de há multo o himeneu entretecia sorrindo os laços de seda e ouro, com que devia uni-los para sempre.
No momento, em que os dois guapos e jovens noivos com as mãos enlaçadas recebiam em face do altar-mor a bênção nupcial, um viandante cavalgando uma linda e possante mula coberta de poeira e suor, envolto em uma pala de linho branco, e calçando botas de mateiro guarnecidas de largas chilenas de prata, entrava pela vila e passando pelo largo da matriz, ao ver aquela influência de povo e alvoroto festival, picado de curiosidade apeou-se para ver que santo se festejava, e ao mesmo tempo rezar uma oração e dar graças ao céu por ter-lhe dado até ali próspera viagem. Deixando o animal entregue ao camarada que o acompanhava, entrou pela porta principal, atravessando a custo a multidão. A cerimônia. estava concluída, e os noivos entonados e radiantes vinham descendo da nave para a porta do frontispício, atravessando a multidão que se abria para dar-lhes passagem, como dois soberbos cisnes cortando as ondas encrespadas de um lago agitado pelos ventos. Vendo o grande préstito que vinha pelo meio da igreja, o viandante arredou-se para um lado para vê-lo passar. Os noivos, que vinham na frente, foi como era natural o primeiro objeto de sua atenção. Mal deu com os olhos neles – Lucinda! – bradou ele com voz que ressoou por toda a igreja.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.