Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Em uma das muitas reuniões que tinham lugar na casa do marquês de Santo Amaro, faziam-se provas de diversas músicas que Neukomm acabava de receber da Europa. O célebre Fascioti cantou uma barcarola que foi ardentemente aplaudida, e o padre José Maurício, que estava ao piano, começou em seguida a variar sobre o motivo, e de arte tal o fez que todos e ele próprio esqueceram-se do tempo que passava, e no meio de geral admiração deram por si ao toque da alvorada.
Esse mesmo Neukomm, ao receber a notícia da morte do padre José Maurício, exclamou chorando: “Ah! os brasileiros nunca souberam o valor do homem que possuíam!”
Prometi não divagar, e talvez pensem que tenho divagado:
protesto e juro que não. Tratando de descrever, devo dizer o que vejo, e ao estudar a capela imperial, não me é possível deixar de ver nos púlpitos e no coro os vultos venerandos desses homens ilustres que são glórias nacionais.
São Carlos, Sampaio, Mont’Alverne e José Maurício são monumentos.
Acabei de referir-me, ainda há pouco, às festas pomposas que se faziam na capela real no tempo da regência e do reinado do Sr. D. João. Com efeito, eram elas notáveis pelo brilhantismo e magnificência com que as mandava celebrar aquele príncipe eminentemente religioso.
Não tive, porém, ocasião de falar de uma solenidade piedosa que tinha em parte lugar na capelinha do Senhor dos Passos, que é, como disse, uma dependência da capela imperial.
Na segunda sexta-feira da quaresma costuma, como ainda hoje se observa, sair à rua, partindo da igreja da Misericórdia, a procissão do Senhor dos Passos; mas a sagrada imagem que principalmente se venera nessa procissão não é do templo donde sai naquele dia.
Na noite da véspera dessa sexta-feira, o Senhor dos Passos da capelinha de sua invocação era solenemente conduzido pelo rei e pela corte para a igreja da Misericórdia, e este ato de devoção continuou a ser praticado pelos augustos filho e neto do Sr. D. João VI.
Entretanto, cumpre não atribuir o começo deste devoto costume à época da chegada da família real portuguesa ao Brasil. Muito antes de 1808, primeiro os governadores e depois os vice-reis, eram os que com os oficiais de maior patente levavam sobre seus ombros a imagem do Senhor dos Passos, na quinta-feira à noite, da capelinha do convento do Carmo para a igreja da Misericórdia.
Outrora, a procissão saída na sexta-feira, parava e fazia as orações dos sete passos diante de oratórios que havia nas esquinas de certas ruas, e de alguns dos quais ainda hoje restam vestígios. No fim da pro cissão, a imagem do Senhor recolhia-se, como atualmente se recolhe, à capela imperial.
Achareis que vos estou contando cousas que todos sabem. Ah! lembrai-vos que os tempos que vão passando levam consigo, pouco a pouco, as usanças, os costumes, as idéias e também algumas cerimônias religiosas dos nossos antigos, e que, portanto, convém ir conservando a memória de todos esses traços que caracterizam e nos mostram as feições do nosso passado.
E por falar no passado, veio agora mesmo doer-me na consciência a idéia de uma omissão que me podem lançar em rosto. Descrevendo o palácio e falando do convento do Carmo, que passou a fazer parte dele, não disse uma única palavra sobre a história antiga desse convento.
Ainda bem que foi uma falta que pode ser facilmente corrigida. Vou tratar disso imediatamente.
VI
Sou agora obrigado a dar um salto enorme, um salto do ano de 1808 e da época do reino do Brasil, da que me ocupava estudando o palácio imperial, para dois séculos e mais alguns lustros antes. Assim é preciso fazer, visto que me comprometi a dar a história antiga da casa que foi convento dos carmelitas.
Irei referir de envolta com alguns fatos registrados nas crônicas do tempo uma ou duas tradições populares. Colhi os primeiros nos livros e memórias que consultei, e as segundas contou-mas um padre velho que morreu há dez anos. Daqueles não é lícito duvidar; a estas pode negar-se crédito sem receio de molestar o padre, que já não tem que ver com as cousas deste mundo.
Sem mais preâmbulos.
O famoso Mem de Sá acabava apenas de lançar os fundamentos da esperançosa Sebastianópolis: seu sobrinho Salvador Correia de Sá tecia ainda no alto do morro do Castelo os primeiros fios daquele ninho de águia que foi o berço da atual capital do Império. A cidade nascente, modesto grupo de palhoças e casinhas humildes, não tinha ainda desci do a banhar seus pés de princesa nas mansas ondas do formoso golfo que do seu trono da colina dominava; a povoação começava apenas, e já aqui e ali surgiam e se mostravam no vale algumas piedosas ermidas que a devoção erguera de improviso.
Cada uma delas era tão simples como a oração que sai da alma
de um menino e sobe ao céu nas asas do anjo da inocência; e eram todas flores
divinas abertas no seio daquele novo paraíso que se mostrara aos olhos dos
portugueses.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.