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#Crônicas#Literatura Brasileira

Alfarrábios: o Ermitão da Glória

Por José de Alencar (1853)

Á proa assomava d'entre as ondas um rochedo, que servia de pouso a grande quantidade de alcatrazes ou corvos do mar, cujos pios lugubres ululavam pelas solidões do oceano.

Era a ilha de Fernando de Noronha.

Ao passar fronteira a escuna, eahiu um pegão de vento, que arrebatou o navio e o despedaçou contra os rochedos, como si fôra uma concha da praia.

Antonio de Caminha que sestéava em seu camarim, depois de muitas horas, ao dar acordo de si, achou-se estendido no meio de uma restinga sem atinar em como fôra para ali transportado, e o que era feito de seu navio.

Só ao alvorecer, quando o mar rejeitou os destroços da escuna e os corpos de seus companheiros, comprehendeu elle o que era passado.

Muitos annos viveu o mancebo ali, n'aquelle rochedo deserto, nutrindo-se de mariscos e ovos de alcatrazes, e habitando uma gruta, que usurpara a esses companheiros de seu exilio.

Ás vezes branquejava uma vela no horizonte ; mas debalde fazia elle signaes, e lançava não gritos já, mas rugidos de desespero. O navio singrava além e perdia-se na immensidade dos mares

Afinal o recolheu um bergantim que tornava ao reino. Eram passados annos, dos quaes perdêra a conta. Ninguem já se lembrava d'elle.

Varias vezes, tentou Caminha a fortuna, que si de todas lhe sorriu, foi só para mais cruel tornarlhe o mallogro das esperanças. Quando ia medrando, e a vida se embellecia aos raios da felicidade, vinha o sopro da fatalidade que de novo o abatia.

Mudava de profissão, mas não mudava de sorte.

Afinal cançou na luta, resignando-se a viver da caridade publica, e a morrer quando esta o desamparasse.

Um pensamento porém o dominava, que o trazia constantemente á ribeira, onde supplicava a todos os maritimos que passavam, a esmola de leval-o ao Rio de Janeiro.

Achou emfim quem d'elle se commiserasse; e ao cabo de bem annos aportára a S. Sebastião. Chegára n'aquella hora e atravessava a cidade, quando viu o tio á porta da casa.

Deixando o velho Duarte, seguiu além pelo Boqueirão da Carioca e foi até a abra que ficava nas faldas do outeiro do Cattete, no mesmo ponto em que trinta annos antes se despedíra de Ayres de Lucena.

Galgou a encosta pelo trilho que então víra tomar o corsario, e achou-se no tope do outeiro, Ahi o surprehendeu ura gemido que sahia da proxima gruta.

Penetrou o mendigo na caverna, e viu prostrado por terra o corpo immovel de um ermitão. Ao ruido de seus passos, soergueu este as palpebras, e seus olhos baços se illuminaram.

A custo levantou a mão apontando para a imagem de Nossa Senhora da Gloria, posta em seu nicho á entrada da gruta; e cerrou de novo os olhos.

Já não era d'este mundo.

EPILOGO

Antonio de Caminha aceitou o legado de Ayres de Lucena..

Vestiu a esclavina do finado ermitão, e tomou conta da gruta onde aquelle vivêra tantos annos.

Viera áquelle sitio como em santa romaria para obter perdão do aggravo que fizera á imagem de Nossa Senhora da Gloria, e chegára justamente quando expirava o ermitão que a servia.

Resolveu pois consagrar o resto de sua vida a expiar n'essa devoção a sua culpa; e todos os annos no dia da Assunção, levantava uma capella votante, onde celebrava-se a gloria da Virgem Purissima.

Toda a gente de S. Sebastião e muita de fóra ia em romagem ao outeiro levar as suas promessas e esmolas, com as quaes poude Antonio de Caminha construir em 1671 uma tosca ermida de taipa, no mesmo sitio onde está a igreja.

Com o andar dos tempos arruinou-se a ermida, sobretudo depois que, entrado pelos annos, rendeu alma ao Creador o ermitão que a tinha edificado.

Antonio Caminha finou-se em cheiro de santidade, e foi a seu rogo sepultado junto do primeiro ermitão do outeiro, cujo segredo morreu com elle.

Mais tarde, já no seculo passado, quando a grande mata do Catette foi roteada e o povoado estendeu-se pelas apraziveis encostas, houve ali uma chacara, cujo terreno abrangia o outeiro e suas cercanias.

Tendo-se formado uma irmandade para a veneração de Nossa Senhora da Gloria, que tantos milagres fazia, os donos da chacara do Cattete cederam o outeiro para a edificação de uma igreja decente e seu patrimonio.

Foi então que se tratou de construir o templo que actualmente existe, ao qual se deu começo em 1714.

FIM DO ERMITÃO DA GLORIA

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