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#Romances#Literatura Brasileira

Diva

Por José de Alencar (1864)

Que magnificências de luxo, que pompas, a natureza e a arte não derramavam sobre aquela festa noturna! Um céu abriu-se ali; e a deusa dele atravessava com gesto olímpio a via-láctea dos salões resplandecentes . Seu passo tinha o sereno deslize, que foi o atributo da divindade; ela movia-se como o cisne sobre as águas, por uma ligeira ondulação das formas. 

A multidão afastava-se para deixá-la passar sem eclipse, na plenitude de sua beleza. Assim, por entre o esplêndido turbilhão, ela assomava como um sorriso; e era realmente o sorriso mimoso daquela noite esplêndida. 

Eu contemplava-a de longe e arredado. Sentia-me triste. O dia inteiro, Emília, absorvida pela festa, nem sequer notara a minha presença. Esquecia-se de si própria, das homenagens ardentes rendidas à sua beleza, para ocupar-se exclusivamente dessa exibição de luxo e riqueza, que ela preparara como uma inspiração de artista e poeta, como um painel ou um poema. 

Foi só quando o edifício iluminou-se e a orquestra derramou torrentes de harmonia, que Emília recolheu em si. Sem dúvida nesse momento ela deixou de ser artista para ser mulher. Vi-a algum tempo absorta e isolada em sua alma, no meio da turba de adoradores. 

De repente sobressaltou-se; como uma estrela, que se desnubla em noite límpida, começou a cintilar. A quadrilha a chamava. Ela atravessou a sala, semeando sorrisos e enlevos n'alma daquela multidão extática, e desapareceu. 

Fiquei onde estava, e sem ânimo de segui-la. 

Eram onze horas já. Duas vezes tinha-me dirigido à porta para me retirar, e duas vezes achara um pretexto para demorar-me. Emília passou pelo braço do Dr. Chaves. 

—Qual é a contradança que eu lhe dei? disse-me ela com a maior naturalidade. 

Essa palavra magoou-me ainda mais. Eu pensava que Emília reparasse na minha esquivança, e iludira-me. Ia desfazer o seu engano, quando ela atalhou-me: 

—Ah!... Foi a sexta... É esta! Depois voltou-se para seu cavalheiro: 

—O senhor permite?... 

Deixando o braço do deputado, tomou o meu. 

—Creio que a senhora enganou-se, D. Emília. —Parece-lhe?... acudiu sorrindo. 

—Decerto! Só um engano me podia dar este prazer. Eu não me animava a pedir-lhe uma contradança. 

—Pois eu creio que foi o senhor quem se enganou. Não lhe perguntei qual foi a quadrilha que me pediu, mas sim a que eu lhe dei... embora não me pedisse! —Ah! Perdão! —Eu devia, respondeu-me séria. Lembre-se! Era uma reparação. 

—Embora! Como me podia eu supor tão feliz! —Porquê! Por dançar uma contradança comigo? disse ela rindo. 

Meu Deus! O que é essa felicidade que os outros acham em cousas tão pequenas e eu... 

—E a senhora?... 

—E eu ainda não encontrei na minha vida. 

—Não diga isso, D. Emília! A senhora não é feliz? Tínhamos chegado ao terraço, onde as luzes, brilhando entre as grandes folhas das palmeiras imperiais agitadas pela brisa,. faziam sobre o pavimento uma ondulação constante de claros e sombras. 

Algumas flores de magnólia exalavam para nós o seu fresco perfume. 

—Não, não sou feliz; disse Emília, descaindo-lhe a fronte. Nada daquilo em que o mundo pensa que está a felicidade, nada me falta; e eu não a tenho; não sei achá-la onde todos a encontram a cada momento. As vezes, quantas!... sinto um quer que seja, uma ligeira emoção, como um sorriso que vem despontando em minha alma. 

talvez a felicidade, digo baixinho; e fico muda e extática para não perturbar dentro em mim esse débil raio que vai nascendo. Mas de repente some-se tudo, como se um abismo se abrisse; procuro minha alma nesse vácuo imenso, e não a sinto! Emília falara maviosa e triste; nesse momento ela pôs os olhos em mim e sorriu. 

—Se isto fosse uma enfermidade, o senhor curava-me; mas não é. 

E quem sabe? Talvez seja! —Não é uma enfermidade, não; é outra cousa. 

—O quê? Diga! —Não será um sonho ainda não realizado?... Uma aspiração vaga e indefinida? —Pode ser! Não sei! respondeu-me com encantadora ingenuidade. 

Meu coração abriu-se de novo à doce esperança, que dele se partira. 

Depois desse baile, a casa de Duarte recebeu todos os domingos a sociedade que D. Matilde reunia habitualmente nas quintas-feiras. 

Encontrava-me pois com Emília dous dias na semana, além das visitas que algumas tardes fazia ao Rio Comprido.  


XI 

As vicissitudes de frieza e indiferença, com que Emília me tratava, não tinham nada que se parecesse com o jogo bem conhecido das moças loureiras, que desdenham quem as persegue e procuram quem as foge. Não havia regra nos seus caprichos. Quando ela queria vir a mim, vinha, sem afetação, francamente, estivesse eu perto ou longe, embebido a contemplá-la ou distraído ao braço de outra moça. 

(continua...)

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