Por José de Alencar (1870)
Quando um de seus inúmeros admiradores vinha pedir-lhe a próxima quadrilha, ela respondia hesitando que já tinha par; apenas o cavalheiro se afastava, arrependia-se de não o ter aceitado, rompendo assim o compromisso tácito; e ficava ansiosa por outro convite. Entretanto novo par se apresentava, que recebia a mesma recusa.
Nesse jogo, muitas vezes repetido, passou o intervalo. O piano deu o sinal da quadrilha; Leopoldo aproximou-se de Amélia, e inclinando-se, sentiu no seu estremecer o braço tépido de Amélia. A moça não teve consciência do que se passou até o momento em que o moço a conduziu a seu lugar. Recordava-se apenas de que seu par lhe falara por muito tempo, com a voz baixa, porém palpitante de emoção.
Assim fora. Passada a primeira confusão da quadrilhas Leopoldo, fitando o olhar no semblante da moça, deu expansão aos sentimentos que lhe tumultuavam dentro d' alma. Com a fronte baixa e as faces cheias de rubores, Amélia parecia absorvida e reconcentrada enquanto o moço falava. Dir-se-ia que ela não o ouvia.
— A senhora acredita, D. Amélia, na atração irresistível, que impele duas almas entre si, e as chama fatalmente a se unirem e absorverem uma na outra?... Eu acreditava nessa força misteriosa, mas ainda não tinha chegado o momento de experimentá-la em mim, de sentir em meu ser este elo divino que prende as almas através do tempo e da matéria. Senti-o há vinte dias, quando a vi pela primeira vez, quando a senhora se revelou ao meu coração.
Leopoldo referiu as emoções que sentira, na ocasião de seu primeiro encontro com Amélia; a impressão que ela deixara em seu espírito; e os sonhos em que se embalara sua imaginação nos dias seguintes.
— Tive então, continuou o mancebo com acento profundo e comovido, tive, então, e depois, a prova de que esse enlevo de meu ser. essa abstração de minha existência para absorver-se noutra, era a atração moral e nada mais. Via, admirava, adorava na senhora uma coisa somente: sua alma. Não sabia, ainda hoje não sei, se a mulher que eu amo é bonita para os outros; sei que para mim é de uma beleza divina. Perdesse ela a graça e a formosura que aos outros seduz, para mim seria a mesma; eu havia de adorá-la com o mesmo ardor. Sua alma é filha de Deus, e como ele de uma magnificência imortal. É uma estrela que não tem eclipse.
Leopoldo inclinou a fronte para falar quase ao ouvido da moça:
— Outrora julgava impossível que se amasse o horrível. Agora reconheço que tudo é possível ao amor verdadeiro, ao amor puro e imaterial. Não só reconheço, mas sinto-me capaz de nutrir uma dessas paixões mártires! Oh! sinto-me capaz de amar o anjo ainda mesmo encarnado em um aleijão! . . .
Leopoldo falou ainda por muito tempo de seu amor a Amélia, sem que ela se animasse a interrompê-lo. Aquela palavra ardente, impetuosa, embora vendada por certo pudor d'alma, a subjugava; ela não tinha coragem, nem mesmo vontade de subtrair-se à sua influência.
Quando Amélia, conduzida por Leopoldo, se dirigia a uma cadeira, D. Clementina aproximou-se:
— Ah! Eu queria apresentá-lo, disse a Leopoldo; mas não teve paciência para esperar.
Depois reclinando ao ouvido de Amélia, perguntou-lhe:
— Então? Não lhe disse que a achava muito bonita?
— Ao contrário, D. Clementina; deu-me a entender que me acha horrível.
— Ande lá.
— Deveras!
— É impossível.
Amélia, sentando-se, evocou a lembrança de Horácio, para fazer no seu espírito o paralelo entre o elegante leão e o estranho mancebo com quem acabava de dançar. Um tinha todas as prendas que seduzem a imaginação: era formoso, trajava com esmero, conversava com muita graça. O outro não possuía nenhum desses atrativos; seu exterior alheava as simpatias; quando falava difundia a tristeza no espírito dos que o escutavam.
A moça não concebia que se preferisse Leopoldo a Horácio; e contudo não podia esquivar-se completamente à influência daquela imagem pálida, que lhe aparecia no meio dos sonhos mais brilhantes.
Muitas vezes, depois de algumas horas agradáveis passadas junto do leão, quando a moça, recolhida à sua alcova, repassava na memória os doces protestos de amor que ainda lhe ressoavam ao ouvido, de repente surgia a lembrança de Leopoldo.
Parecia-lhe então que da fronte do mancebo se desprendia uma sombra para anuviar seus pensamentos risonhos.
Horácio, sabendo onde Amélia passava as noites em que ele a não via, mostrara desejos de freqüentar a casa de D. Clementina; a moça porém opôs-se. Duas razoes atuaram em seu espírito.
Aquela casa servia-lhe de abrigo contra a sedução que exercia em seu espírito a elegância de Horácio. Quando sentia-se vencida, fugia para ali, onde recobrava forças para resistir de domar completamente o leão, soberbo de suas conquistas passadas.
(continua...)
ALENCAR, José de. A Pata da Gazela. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16673 . Acesso em: 8 jan. 2026.