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#Comédias#Literatura Brasileira

Luxo e Vaidade

Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)

Maurício — Desde muito que o são: eu respondo pelo reconhecimento de Anastácio.

Anastácio — Menos essa! Ninguém responde por mim...quero dizer...que...meu irmão fala muito bem a linguagem cá da cidade, e eu...roceiro, velho e rude...tenho um modo de falar que não agrada a todos...mas tal como sou, aprecio devidamente...(Á parte) Eles hão de pensar que eu sou um estúpido...pois que pensem! (A todos) E os senhores podem ficar certos de que...eu já os conheço tanto...que declaro...sim declaro...(À parte) Ora viva! Eu vou declarar o diabo! (A todos) Declaro...


CENA VIII

Os precedentes, e Petit, da porta do fundo.

Petit — Madame est servie. (Vai-se)

Anastácio (Indo a Petit) — Abençoado sejas tu, Petit de uma figa.

Hortênsia — Vamos jantar; senhor coronel, o seu braço. (Toma-lhe o braço) Leonina, pede o braço ao senhor comendador...

Anastácio — Não é possível; Leonina já está engajada comigo. (A Leonina) É engajada que se diz, não é, Leonina?...

Hortênsia (A Reinaldo) — Meu cunhado é um homem muito vexado. (Vão saindo)

Reinaldo (A Hortênsia) — Pois olhe, não era assim no outro tempo. (Saem) Fabiana (Tomando o braço de Pereira) — É um original!

Pereira (A Fabiana) — Não tem espírito...parece-me até idiota. (Saem)

Maurício (Dando o braço a Filipa) — Venha meu irmão. (Saem e Frederico com Lúcia)

Anastácio — Eu já os sigo; quero dizer primeiro uma palavra a Leonina. (À parte) Este jantar de hoje não me passa da garganta.

CENA IX

Anastácio, Leonina, e logo Henrique.

Leonina — Que me quer dizer, meu padrinho?...

Anastácio — Eu, nada. Quero despedir-me de Henrique.(Vai à porta do quarto) Agora podes sair; e até logo.

Henrique — Adeus, meu tio; minha...prima... (Cumprimenta-a)

Anastácio — Então como é isso?...não lhe dás a mão, Leonina?...(Leonina dá a mão, e Henrique a beija com ardor). Bravo! Agora sim; jantarei como um frade, e vou até fazer uma saúde ao comendador Pereira. (Vão-se)

FIM DO TERCEIRO ATO

ATO IV

Jardim espaçoso e todo iluminado; ao fundo uma casa de campo de bela aparência, assobradada e com escadaria na frente: pelas janelas abertas vê-se brilhar as luzes; bancos de relva no jardim: à esquerda um caramanchão coberto de jasmins; perto dele um portão de grades de ferro.



CENA I

Há um baile de máscaras; música, e ruído de festa; os máscaras sobem e descem pela escadaria, e aparecem às janelas; dirigem-se uns aos outros. Dois Máscaras: o primeiro sentado em um banco, o segundo chega e pousa-lhe a mão no ombro.

Segundo Máscara — Belo máscara, porque deixaste o baile?...esperas ou descansas?...

Primeiro Máscara — A esperança é falaz como a mulher, e o descanso é o marido fidelíssimo da preguiça; aborreço-os a ambos: não espero, nem descanso.

Segundo Máscara — Dá-me então o segredo de tua vida...

Primeiro Máscara — Medito sempre e ainda mesmo quando trago uma máscara no rosto. Agora estava pensando na grande loucura de um baile de máscaras, e procurava determinar com certeza quem é a pessoa que o baile em que estamos, assinala, como tendo menos juízo.

Segundo Máscara — Isso não tem que ver, é o dono da casa.

Primeiro Máscara — Pois enganas-te: é o credor ou são os credores do festeiro, que provavelmente nunca mais tornarão a ver o cunho do dinheiro que emprestaram para as despesas da festa.

Segundo Máscara — És má língua, e te levantas contra o santo, e contra a esmola.

Primeiro Máscara — Esquecia-me dizer-te, que há meia hora perdi um conto de réis ao lansquenete! Parei na dama de copas, que dez vezes consecutivas deixouse cair no lado direito!...oh!...dama constante assim, é a primeira vez que encontro!

Segundo Máscara — E achas que deves desforrar-te do dono da casa?...

Primeiro Máscara — Desforrar-me?! Pronunciaste uma palavra de bom agouro:

voltemos ao baile, e na sala do jogo paremos de parceria na primeira carta...

Segundo Máscara — Menos se a carta for alguma dama, porque as damas...



CENA II

Os dois Máscaras, que logo se retiram: Fabiana, Filipa, Frederico e todos os mascarados.

Filipa — Fazem o martírio dos tolos; não é assim, belo máscara?...

Segundo Máscara — Ei-las comigo: imagens mundanas, fugité!...(Vai-se)

Primeiro Máscara — Três! Má conta: um sonha; dois suspiram; três conspiram!

(Vai-se)

Fabiana — Que horrível calor faz lá dentro! (Tiram as máscaras) Conversemos ao menos alguns instantes aqui no jardim.

(continua...)

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