Por Padre Antônio Vieira (1672)
O impossível de estar todo em todo, e todo em qualquer parte, também o descrerá o filósofo e confessará facilmente que é possível, se tornar à escola da natureza. Tome o filósofo nas mãos um espelho de Cristal, veja-se nele, e verá uma só figura. Quebre logo esse espelho, e que verá? Verá tantas vezes multiplicada a mesma figura quantas são as partes do Cristal, e tão inteira e perfeita nas partes grandes e maiores, como nas pequenas, como nas menores, como nas mínimas. Pois assim como um Cristal inteiro é um só espelho, e dividido são muitos espelhos, assim aquele circulo branco de pão, inteiro é uma só hóstia, e partido são muitas. E assim como se parte o Cristal sem se partir a figura, assim se parte a hóstia sem partir o corpo de Cristo. E assim como a figura está em todo o Cristal, e toda em qualquer parte dele, ainda que seja muito pequena, assim em toda a hóstia está todo Cristo, e todo em qualquer parte dela, por menor e por mínima que seja. E assim, finalmente, como o rosto que se vê no Cristal, dividido em tantas partes, é sempre um só e o mesmo, e somente se multiplicam as imagens dele, assim também o corpo de Cristo, que está na hóstia dividido em tantas partes, é sempre um só corpo, e somente se multiplicam as suas presenças. Lá o objeto é um só e as imagens são muitas; cá da mesma maneira as presenças são muitas, mas o objeto é um só. Pode haver semelhança mais viva? Pode haver propriedade mais própria? Parece que criou Deus o mistério do Cristal só para espelho do sacramento. Assim o disse Davi e o entendeu a Igreja: Mittit crystallum suam sicut bucelías: Deita Deus os seus Cristais do céu à terra como bocados de pão28. Notável, como peregrina comparação! Que semelhança têm os bocados de pão com o Cristal, ou o Cristal com os bocados de pão? Com os bocados do pão usual da vossa mesa, nenhum; mas com os bocados do Pão Sacramental da mesa eucarística, toda aquela semelhança maravilhosa, que vistes. Porque tudo o que no Cristal se vê como por vidraças, é o que passa dentro no Sacramento com as cortinas corridas. Assim como no Cristal se vê por milagre manifesto da natureza o todo sem ocupar mais que a parte, a divisão sem destruir a inteireza, e a multiplicação sem exceder a singularidade, assim na hóstia, com oculta e sobrenatural maravilha, o mesmo corpo de Cristo é um e infinitamente multiplicado, dividido, e sempre inteiro, e tão todo na parte como no todo.
E que não haja o filósofo de crer aos olhos, ainda que lhe digam contestemente que ali está pão, a mesma natureza lho ensina com um notável exemplo. Na íris, ou arco celeste, todos os nossos olhos jurarão que estão vendo variedade de cores, e contudo ensina a verdadeira filosofia que naquele arco não há cores, senão luz e água. Pois se a filosofia ensina que não há cor onde os olhos estão vendo cor que muito que ensine a fé que não há pão onde os olhos parece que vêem pão? Por isso dizia Davi, falando de seus olhos, uma coisa muito digna de reparar, em que ninguém repara: Revela oculos meos, et considerabo mirabilia de lege tua (SI. 118, 18): Senhor, revelai-me os olhos, e considerarei vossas maravilhas. Parece que havia de dizer o profeta: Senhor, revelai-me vossas maravilhas, para que eu as conheça, mas revelai-me os olhos para que conheça vossas maravilhas! Sim, porque muitas vezes os olhos contradizem as maravilhas de Deus, como se vê no mistério da Eucaristia. E para entender semelhantes maravilhas, são necessárias duas revelações: uma revelação nas maravilhas, para que o entendimento as conheça, outra revelação nos olhos, para que a vista as não contradiga. Mas esta segunda revelação não é necessário que a faça Deus; basta que a faça a razão. Se a vista se engana nas obras da natureza, nas que são sobre a natureza, como se não há de enganar? E se em um arco de luz e nuvem assim erram e desatinam os olhos, em um círculo de nuvem sem luz, que crédito lhes há de dar? Emende logo o filósofo a vista com o discurso, e confesse ensinado da natureza e convencido da razão a verdade indubitável daquele Vere: Vere est cibus, vere est potus.
§VI
Quinto inimigo: troca-se mui acertadamente o político pelo demônio. Objeção: é impossível que os homens que comungam a Cristo no sacramento sejam como Deus, visto como o demônio apenas querendo assemelhar-se a Deus foi por isso castigado. Se o maná era pão de anjos, como o corpo do Filho de Deus há de ser pão de homens? – Deus unindo-se à natureza humana, e não à angélica, preferiu os homens aos anjos. O primeiro inventor da Eucaristia foi o próprio demônio no Paraíso terrestre. Cristo apenas fez verdadeira a sua mentira, consagrando debaixo das espécies de pão o que ele fingira debaixo das aparências de pomo.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 13 ago. 2026.