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#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

Sustentado pela vasta influência da parentela, fora com efeito levado, sem abalos nem choques, numa ascensão gradual e confortável, até à sua poltrona de damasco vermelho da Relação de Lisboa. Aí se deixara cair com o peso da sua obesidade, e cruzando as mãos sobre o estômago, começara a ruminar regaladamente. Que de modo nenhum se creia que eu queira diminuir com azedume os méritos deste varão obeso: quero somente mostrar a natureza, toda de indolência e de egoísmo, do Desembargador Amado, ocupado em se nutrir com abundância, atento exclusivamente ao jogo das suas funções, assustado se a bexiga, ou o baço, ou o fígado denunciavam alterações, sem ter coragem de se mexer do sofá durante noites inteiras, completamente desinteressado dos homens – e mesmo de Deus.

O nosso imortal José Estêvão, vendo-o um dia entrar numa recepção em casa do chorado duque de Saldanha, exclamou, designando-o com um verso conhecido de Juvenal:

– Aquele ventre que ali vem, é o Amado!

Era com efeito um ventre, que em certos dias da semana punha sonolentamente os óculos, e assinava com a mão papuda, onde os colegas lhe indicavam com o dedo; da sua ciência jurídica, nada direi, para não envergonhar as paredes e os móveis deste.27 quarto onde escrevo; da sua honestidade, sei que a sua grande fortuna e as suas pro-priedades de Azeitão o tornavam indiferente às tentações do dinheiro: mas condenaria Jesus e absolveria o mau ladrão, se o peitassem com um casal de patos bem gordos ou com um salmão fresco do Rio Minho.

Fazia, ao comer a sopa, um glou-glou nojento e repelente, e atirava para o soalho os escarros que merecia na face. Tal era esta besta obesa. O Conde detestava-o. E eu mesmo, apenas o respeito que lhe devia como sogro de S. Exª, me impediu certa noite – ainda tremo ao recordálo! – de lhe atirar estas mãos ao pescoço gordalhufo, e apertar-lho, apertar-lho até que lhe pendesse, inchada e negra, aquela língua onde a banalidade era mais usual que a saliva, e lhe saíssem das órbitas aqueles olhos que só tinham fixado neste mundo com algum interesse as postas de vitela de que se abarrotava.

Era uma noite que ele passara em casa do Conde. Desde o jantar, estirado numa poltrona, só denunciando a sua presença por arrotos frequentes, tinha dormido o sono bestial do seu enfartamento senil. Eu estava justamente contando à Srª Condessa, que me escutava com interesse, uma deliciosa anedota do Sr. D. João VI que lera nessa tarde – quando ouvi, do fundo da poltrona onde dormitava o Vitellius, estas palavras, naquela voz espessa e brutal que era a repercussão sonora da sua inteligência:

– Olá, senhor secretário, veja lá em baixo se já vieram com a sege!...

Eu fiquei petrificado, com a lividez da cal. Mas a Srª Condessa que – sejam quais forem as suas culpas – tinha delicadezas tocantes, acudiu imediatamente.

– Oh papá!

E agitando a campainha, dirigiu-se ao João que aparecera.

– Veja se já está a carruagem do papá!

Enquanto fui secretário do Conde, tratei com Fidalgos, com Ministros, com Embaixadores, com Augustos Personagens, e só recebi de S. Ex.ª – e poderia dizer de S.S. MM. e AA. – aquela benévola consideração que talvez as minhas aptidões justificassem, mas que eu recebia como preciosa recompensa da minha dedicação. Mesmo junto dos degraus do Trono, só encontrei bondade, e a mão que eu ia beijar na humildade tradicional, apertava a minha com uma simpatia que me deixava na alma impressões inesquecíveis. Só aquela obesa carcaça se arrojou a tratar-me como um lacaio!

Morreu. Morreu da bexiga. Notou-se com admiração o fétido que lhe saiu do corpo, depois de morto, e a decomposição muito rápida das matérias serosas: isto talvez fosse a dissolução do corpo; mas o cheiro asqueroso vinha da sua alma torpe que se soltava, dando a exalação de uma latrina que se destapa.

O caixão em que o levaram pesava arrobas, e quando o embalsamaram e lhe extraíram o cérebro, viram que não era mais volumoso que o de um bacorinho recém-nascido. Na cavidade craniana meteram-lhe um pedaço de esponja velha, decerto mais útil e tão inteligente como o cérebro que substituía!

Amortalharam-no na sua beca de cetim, – que não cobre agora um desembargador mais morto e mais pútrido do que tinha coberto nos dias de sessão da Relação de Lisboa. Levaramno ao Alto de S. João, ao passo de quatro éguas cobertas de panos negros; e as quatro éguas agitavam a cabeça, parecendo vaidosas do cadáver que arrastavam: foi o único orgulho que inspirou jamais a companhia da sua pessoa. Ali apodrece aquele resto de matéria mal organizada, que rebolou durante anos pela terra, sob o nome desacreditado de Justiniano Sarmento Amado.

(continua...)

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