Por Eça de Queirós (1888)
Então, sem ruido, subiu ao quarto de Pedro. Havia uma fenda clara, entreabriu a porta. O filho escrevia, á luz de duas vellas, com o estojo aberto ao lado. Pareceu espantado de ver o pae: e na face que ergueu, envelhecida e livida, dois sulcos negros faziam-lhe os olhos mais refulgentes e duros.
- Estou a escrever, disse elle.
Esfregou as mãos, como arripiado da friagem do quarto, e accrescentou:
- Amanhã cedo é necessario que o Villaça vá a Arroios... Estão lá os criados, tenho lá dois cavallos meus, emfim uma porção de arranjos. Eu estou-lhe a escrever. É numero 32 a casa d'elle, não é? O Teixeira ha de saber. Boas noites, papá, boas noites.
No seu quarto, ao lado da livraria, Affonso não poude socegar, n'uma oppressão, uma inquietação que a cada momento o faziam erguer sobre o travesseiro, escutar: agora, no silencio da casa e do vento que calmara, ressoavam por cima lentos e continuos os passos de Pedro.
A madrugada clareava, Affonso ia adormecendo - quando de repente um tiro atroou a casa. Precipitou-se do leito, despido e gritando: um creado acudia tambem com uma lanterna. Do quarto de Pedro ainda entreaberto vinha um cheiro de polvora; e aos pés da
cama, caido de bruços, n'uma poça de sangue que se ensopava no tapete, Affonso encontrou seu filho morto, apertando uma pistola na mão.
Entre as duas vélas que se extinguiam, com fogachos lividos, deixára-lhe uma carta lacrada com estas palavras sobre o enveloppe, numa letra firme: Para o papá.
D'ahi a dias fechou-se a casa de Bemfica. Affonso da Maia partia com o neto e com todos os criados para a quinta de Sta. Olavia.
Quando Villaça, em fevereiro, foi lá acompanhar o corpo de Pedro, que ia ser depositado no jazigo de familia, não pôde conter as lagrimas ao avistar aquella vivenda onde passára tão alegres nataes. Um baetão preto recobria o brazão d'armas, e esse panno de esquife parecia ter distingido todo o seu negrume sobre a fachada muda, sobre os castanheiros que ornavam o pateo; dentro os criados abafavam a voz, carregados de luto; não havia uma flor nas jarras; o proprio encanto de Sta. Olavia, o fresco cantar das aguas vivas por tanques e repuchos, vinha agora com a cadencia saudosa de um choro. E Villaça foi encontrar Affonso na livraria, com as janellas cerradas ao lindo sol de inverno, caido para uma poltrona, a face cavada sob os cabellos crescidos e brancos, as mãos magras e ociosas sobre os joelhos...
O procurador veio dizer para Lisboa que o velho não durava um anno.
III
Mas esse anno passou, outros annos passaram. Por uma manhã de abril, nas vesperas de Paschoa, Villaça chegava de novo a Sta. Olavia.
Não o esperavam tão cedo; e como era o primeiro dia bonito d'essa primavera chuvosa os senhores andavam para a quinta. O mordomo, o Teixeira, que ia já embranquecendo, mostrou-se todo satisfeito de ver o sr. administrador com quem ás vezes se correspondia, e conduziu-o á sala de jantar onde a velha governante, a Gertrudes, tomada de surpreza, deixou cair uma pilha de guardanapos e para lhe saltar ao pescoço.
As tres portas envidraçadas estavam abertas para o terraço, que se estendia ao sol, com a sua balustrada de marmore coberta de trepadeiras: e Villaça, adiantando-se para os degraus que desciam ao jardim, mal poude reconhecer Affonso da Maia n'aquelle velho de barba de neve, mas tão robusto e corado, que vinha subindo a rua de romanzeiras com o seu neto pela mão.
Carlos, ao avistar no terraço um desconhecido, de chapéo alto, abafado n'um cache-nez de pelucia, correu a miral-o, curioso – e achou-se arrebatado nos braços do bom Villaça, que largara o guarda sol, o beijava pelo cabello, pela face, balbuciando:
- Oh meu menino, meu querido menino! Que lindo que está! que crescido que está...
- Então, sem avisar, Villaça? exclamava Affonso da Maia, chegando de braços abertos. Nós só o esperavamos para a semana, creatura!
Os dois velhos abraçaram-se; depois um momento os seus olhos encontraram-se, vivos e humidos, e tornaram a apertar-se commovidos.
Carlos ao lado, muito serio, todo esbelto, com as mãos enterradas nos bolsos das suas largas bragas de flanella branca, o casquete da mesma flanella posta de lado sobre os bellos anneis do cabello negro - continuava a mirar o Villaça, que com o beiço tremulo, tendo tirado a luva, limpava os olhos por baixo dos oculos.
- E ninguem a esperal-o, nem um criado lá em baixo no rio! dizia Affonso. Emfim, cá o temos, é o essencial... E como você está rijo, Villaça!
- E v. ex.ª meu senhor! balbuciou o administrador, engulindo um soluço. Nem uma ruga! Branco sim, mas uma cara de moço... Eu nem o conhecia!... Quando me lembro, a ultima vez que o vi... E cá isto! cá esta linda flor!...
Ia abraçar Carlos outra vez enthusiasmado, mas o rapaz fugiu-lhe com uma bella risada, saltou do terraço, foi pendurar-se d'um trapesio armado entre as arvores, e ficou lá, balançando-se em cadencia, forte e airoso, gritando: «tu és o Villaça!»
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.