Por Eça de Queirós (1870)
Fui caindo molemente num despego lânguido, fecharam-se-me os olhos, adormeci.Ao acordar, depois de um sono breve mas sossegado e repara dor, encarei na ceia que reluzia aos meus olhos.
Havia sobre a mesa um pão, uma caixa de lata com sardinhas de Nantes, umaterrinazinha de foie gras, uma perdiz, uma fatia de queijo e três garrafas de vinho deBorgonha, lacradas de verde; junto destas, quatro garrafas de soda. Na argola de prata do guardanapo estava passado o saca-rolhas. Sobre uma bandeja de metal erguia-se um eixo decharutos cor de chocolate, luzidios, gordos, apertados nas extremidades com duas fitas de seda carmesim. Em cima da caixa das sardinhas achava-se colocado o ins trumento destinadoa abri-la. O copo era de cristal finíssimo, o garfo de prata dourada, a faca de cabo de madrepérola, os pratos de porcelana brancos, cercados de um estreito filete dourado e verde. Atirei rapidamente com os pés para o chão. Sentei-me no sofá, senti a fome encavalar-se-meno dorso, carregar-me na cabeça para cima da ceia, cingir-me a cinta com as suas pernas esgalgadas e cravar-me no estômago vazio os acicates da gula.Ao mesmo tempo ergueu-se-me do outro lado da mesa a aban tesma do susto, cravando os olhos em mim e espalmando por cima das iguarias a sua mão descamada e trémula com um gesto proibitivo e solene. Atarantado, perplexo, escutei então dentro de mim um brevediálogo semelhante àqueles que Xavier de Maistre tra vava de quando em quando com a besta, na sua viagem à volta do quarto.Havia uma voz pausada e grave que dizia:
— Atenta no que fazes, temerário! Abre teus olhos, inconsi derado mortal! Essa perdiz, cujo peito insidioso e pérfido está lourejando a teus olhos; foi apimentada com arsénico.Aquele Chambertin, que te espera como uma onda dá lagoa Estígia, emboscada por detrás daquele letreiro envernizado, aparentemente simples, elegante, convidativo, mas em verdadetenebroso e fatal como o dístico do festim de Baltasar, aquele vinho, que te oferece um beijo refalsado e fementido, está destemperado com ácido prús sico. As trufas, lúbricas, venais, devassas, envoltas nesses fígados de pato, estão empapadas nos temperos letais da cozinhados Bórgias!
A outra voz, insinuante e meiga, dizia numa vaga melodia deSereia: — Come, se tens fome, estúpido! Estás com medo do papão, ma luco?... Põe os olhos nesse lacre: não será um penhor seguro da pu reza do líquido que ele tapa a marca desse abonado sinete? Não vês hermeticamente fechada, chumbada e garantida com os mais especiais lavores a lata dessas sardinhas pescadas nas costas de França e cozinhadas há seis meses em Marselha? Não vês religio samente grud ada e selada com as etiquetas insuspeitas esagradas da acreditada casa Chevet essa terrina de foie gras? Supões acaso, ó parlapatão, quemeio mundo se conjurasse para te arrancar essa vida inútil? Come, bebe e dorme; aproveita nos braços da sabedoria as horas gostosas da solidão com que te brinda o acaso. Deleita-teconversando depois contigo e repousando-te no seio tépido da melancolia, dessa deliciosa fada que só aparece evocada pelos namorados e pelos solitários, e que é na terra a irmã maisnova da tristeza, a irmã gâtée, a irmã feliz!Eu, no entanto, havia cortado a caixa das sardinhas, desgru dado a tampa da terrina e desarrolhado uma garrafa de vinho e uma garrafa de soda que misturara num copo.Pus-me, por fim, a comer caiu apetite, com valor, com delícia, com uma espécie de bestialidade voluptuosa, sentindo vagamente adejarem em volta de mim os espíritosbenéficos do cárcere que bafejaram as prisões de Sílvio Pélico.
É singular isto: achava-me bem! Depois da ceia acendi um charuto e comecei a passear no quarto, dizendo comigo:- Visitemos o país!
Na parede que ficava ao lado da porta por onde se entrava ha via uma outra porta.Examinei-a. Estava apenas segura com um ferrolho exterior. Afastei a cama encostada à parede em que se achava esta porta e abri-a.
Era um armário na espessura do muro, largo, profundo, divi dido a meia altura por umprateleiro espaçoso e sólido.
Ocorreu-me que ao fundo do armário haveria talvez um tabi que delgado através do qual me seria possível escutar o que se passasse na casa contígua.Penetrei no armário, estendi-me no prateleiro, escutei. Do outro lado havia um ruído volumoso e maciço. Parecia que se estava arrastando um móvel pesado e grande.O fundo do armário era efectivamente formado por um tapamento franzino. Era possível que tivesse havido primitivamente uma porta no lugar em que se fizera o armário. Havia um ponto em que a argamassa caíra, e eu via diante de mim um pedaço de ripaatravessado diagonalmente e descamado da cal.
Peguei no saca-rolhas e no lugar indicado fui esburacando devagarinho eprogressivamente o cimento do muro, até operar um orifício imperceptível, pelo qual me era dado ver a luz e ouvir distintamente o que se dizia do outro lado.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.