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#Novelas#Literatura Portuguesa

Alves & Cia

Por Eça de Queirós (1925)

— Aqui está para que a gente se casa! E aqui está para que se quer ter família!

CAPÍTULO VII

Às seis horas da tarde, Godofredo, em chinelos, no seu gabinete, acabava de lacrar um maço de papéis, quando a campainha retiniu e os seus dois amigos apareceram. Carvalho, apesar da sua indiferença pela etiqueta, fora mudar de fato, estava de sobrecasaca preta: - e ambos traziam um ar grave.

Medeiros, agora muito correto, com o bigode encerado, sentou-se no sofá – na sala onde a criada os introduzira – e começou a tirar lentamente as suas luvas pretas, e olhava Godofredo.

— Estás aí a rebentar de curiosidade? Pois olha, pôr ora nada feito.

Godofredo, que tivera os olhos cravados nele, e estava muito pálido, pareceu respirar melhor. Mas subitamente enfureceu-se. Como nada feito? Então o infame recusava-lhe uma reparação.

Carvalho acudiu:

— Não, senhor. A cada um o que é seu, o Machado nisto anda bem.

— Então?

— Foram as testemunhas, que se mostraram recalcitrantes – disse o Medeiros. — Aqui está o que foi.

Era uma longa história, que o Medeiros contou com detalhes, gozando. Tinham falado ao Machado, que lhes prometeu que dois amigos dele estariam às quatro horas em casa dele, Medeiros. E pontualmente apareceram lá o Nunes Vidal, que ele conhecia perfeitamente , rapaz de experiência em coisas de honra, e o Cunha, o Albertinho Cunha, que pouco falara, estava como um comparsa. Entraram, cumprimentos, etc., tudo muito grave, e toda a amabilidade. Depois vieram à questão: o Nunes Vidal declarou logo que, em princípio, o sr. Machado estava pronto a aceitar todas as condições, todas quaisquer que fossem, propostas pelo sr. Alves. Inteiramente todas. Mas que ele, NunesVidal, e ali o seu amigo Cunha entendiam que o dever das testemunhas, num conflito, era, antes de tudo, procurar paz e conciliação. E que portanto, se em princípio o seu constituinte, o sr. Machado, pôr um excesso de pundonor e orgulho estava disposto a deixar-se matar, eles, suas testemunhas, que tinham tomado nas suas mãos os interesses dele, estavam ali, e tinham vindo ali não só para procurar, tanto quanto possível, o evitar que sucedesse uma desgraça no campo ao seu amigo, mas mesmo que em volta do nome dele se fizesse um escândalo, que o prejudicaria...

— Tudo isto muito bem dito – acrescentou o Medeiros, tudo muito bem explicado, com bonitas palavras... Sério, gostei do Vidal.

— Ah, rapaz de muito talento – murmurou o Carvalho.

Enfim o Vidal terminara pôr dizer que, tudo bem considerado, não julgavam que houvesse motivo para um duelo grave à pistola.

Outra vez a falta de motivo. Godofredo despropositou:

— Com mil diabos, então que queria esse asno que o Machado me tivesse feito de pior?

Com um gesto, Medeiros conteve-o.

— Não te exaltes, não te exaltes... Deixa estar que lá lhe disse tudo. O Vidal é muito esperto, mas olha que eu não me calei. Pergunta ao Carvalho...

— Andaste como um rábula – disse Carvalho.

— Mas então que diabo disse o Vidal? – exclamou ainda Godofredo.

O Vidal dissera que não havia motivo de sangue, porque o que se passara entre Machado e a senhora fora um simples namoro...

Godofredo teve um gesto furioso. E o Medeiros, erguendo-se também:

— Não te exaltes, escuta. Eu lá lhe disse tudo. Contei-lhe do modo como o apanhaste, e a carta, meu riquinho que tarde a de ontem, e o resto. Apresentei-lhe todos os dados para o convencer que o adultério era completo... Não é verdade, Carvalho?

— Todos.

— Disse-lhe claramente: o meu constituinte, o nosso amigo Alves, é, em toda a extensão da palavra, um marido que... Enfim, necessita reparação. Não é verdade, Carvalho?

Carvalho fez um gesto de assentimento.

— Mas o Nunes provou-me que não. Tinha lido as cartas ele também, o Machado contara-lhe tudo, e depois de ter combinado, pensado, chegara a este resultado: que não passara de namoro.

Houve um silêncio na sala. Godofredo passeava vivamente, com as mãos nos bolsos. Carvalho examinava vagamente em quadro representando Leda e o cisne. De repente, Godofredo parou, exclamou, com uma voz surda, espaçando as palavras:

— Aí nesse sofá, os vi eu abraçados um ao outro... Que diz a isto o Nunes?

— Esse é que é o único ponto – exclamou Medeiros. – Esse ponto é que se não pode negar porque tu viste, com os teus olhos. Mas o Machado explicou ao Nunes. E o Nunes explicou-nos a nós. Era uma brincadeira, era a rir, era a fazer cócegas...

— E a carta, que tarde a de ontem? – exclamou Godofredo.

— Disse o Nunes que naturalmente se refere a um passeio que vocês deram a Belém. Vocês foram a Belém?

Godofredo pensou um momento. Sim, tinham ido a Belém. Era verdade que tinham todos três ido a Belém.

— Então aí tens. Era a lembrar o prazer de terem ido todos, a patuscada, a passeata, etc...

(continua...)

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