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#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

Madame de Verghane, com um curto suspiro de emoção, alteou o peito, como para lhe expor melhor a magnificência ebúrnea. E o homem do Boulevard, o velho da Grã-Cruz, Efraim, quase me empurraram, investindo para a porta, na imensa sofreguidão de Pessoa Real.

Precedido pôr Jacinto, o Grão-duque surgiu. Era um possante homem, de barba em bico, já grisalha, um pouco calvo. Durante um momento hesitou, com um balanço lento sobre os és pequeninos, calçados de sapatos rasos, quase sumidos sob as pantalonas muito largas. Depois, pesado e risonho, veio apertar a mão às senhoras que mergulhavam nos veludos e sedas, em mesuras de Corte. E imediatamente, batendo com carinhosa jovialidade no ombro de Jacinto:

-E o peixe?... Preparado pela receita que mandei, hem?

Um murmúrio de Jacinto tranqüilizou S. Alteza.

-Ainda bem, ainda bem! – exclamou ele, no seu vozeirão de comando. Que eu não jantei, absolutamente não jantei! É que se está jantando deploravelmente em casa do José. Mas pôr que se vai jantar ainda ao José? Sempre que chego a Paris, pergunto: “Onde é que se janta agora?” em casa do José!... Qual! não se janta! Hoje, pôr exemplo, galinholas... Uma peste! Não tem, não tem a noção da galinhola!

Os seus olhos azulados, dum azul sujo, rebrilhavam, alargados pela indignação:

-Paris está perdendo todas as suas superioridades. Já se não janta, em Paris!

Então, em redor, aqueles senhores concordaram, desolados. O conde de Trèves defendeu o Bignon, onde se conservavam nobres tradições. E o diretor do Boulevard, que se empurrava todo para S. alteza, atribuía a decadência da cozinha, em França, à República, ao gosto democrático e torpe pelo barato.

-No Paillard, todavia... – começou o Efraim.

-No Paillard! – gritou logo o Grão-Duque. – Mas os Borgonhas são tão maus! Os Borgonhas são tão maus!...

Deixara pender os braços, os ombros, descoroçoado. Depois, com o seu lento andar balançado como o dum

velho piloto, atirando um pouco para trás as lapelas da casaca, foi saudar Madame de Oriol, que toda ela faiscou, no sorriso, nos olhos, nas jóias, em cada prega das suas sedas cor de salmão. Mas apenas a clara e macia criatura, batendo o leque como uma asa alegre, começara a chalrar, S.Alteza reparou no aparelho de Teatrofone, pousado sobre uma mesa entre flores, e chamou Jacinto:

-Em comunicação com o Alcazar?... O Teatrofone?

-Certamente, meu senhor.

Excelente! Muito chique! Ele ficara com pena de não ouvir a Gilberte numa cançoneta nova, as Casquettes. Onze e meia! Era justamente a essa hora que ela cantava, no último ato da Revista Elétrica... – colou às orelhas os dois “receptores” do Teatrofone, e quedou embebido, com uma ruga séria na testa dura. De repente num comando forte:

-É ela! Chuta! Venham ouvir!... É ela! Venham todos! Princesa de Carman, para aqui! Todos! É ela! Chuta!...

Então, como Jacinto instalara prodigamente dois Teatrofones, cada um provido de doze fios, as senhoras,

todos aqueles cavalheiros, se apressaram a acercar submissamente um “receptor” do ouvido, e a permanecer imóveis para saborear Les Casquettes. E no salão cor-de-rosa murcha, na nave da Biblioteca, onde se espalhara um silêncio augusto, só eu fiquei desligado do Teatrofone, com as mãos nas algibeiras e ocioso.

No relógio monumental, que marcava a hora de todas as Capitais e o movimento de todos os Planetas, o ponteiro rendilhado adormeceu. Sobre a mudez e a imobilidade pensativa daqueles dorsos, daqueles decotes, a Eletricidade refulgia com uma tristeza de sol regelado. E de cada orelha atenta, que a mão tapava, pendia um fio negro, como uma tripa. Dornan, esboroado sobre a mesa, cerrara as pálpebras, numa meditação de monge obeso. O historiador dos Duques de Anjou, com o “receptor” na ponta delicada dos dedos, erguendo o nariz agudo e triste, gravemente cumpria um dever palaciano. Madame de Oriol sorria, toda lânguida, como se o fio lhe murmurasse doçuras. Para desentorpecer arrisquei um passo tímido. Mas caiu logo sobre mim um chut severo do Grão-Duque! Recuei para entre as cortinas da janela, a abrigar a minha ociosidade. O Psicólogo da Couraça, distante da mesa, com o seu comprido fio esticado, mordia o beiço, num esforço de penetração. A beatitude de S. Alteza, enterrado numa vasta poltrona, era perfeita. Ao lado o colo de Madame Verghane arfava como uma onda de leite. E o meu pobre Jacinto, numa aplicação conscienciosa, pendia sobre o Teatrofone tão tristemente como sobre uma sepultura.

Então, ante aqueles seres de superior civilização, sorvendo num silêncio devoto as obscenidades que a Gilberte lhes gania, pôr debaixo do solo de Paris, através de fios mergulhados nos esgotos, cingidos aos canos das fezes – pensei na minha aldeia adormecida. O crescente de lua, que, seguido duma estrelinha, corria entre nuvens sobre os telhados e as chaminés negras dos Campos Elísios, também andava lá fugindo, mais lustrosa e mais doce, pôr cima dos pinheirais. As rãs coaxavam ao longe no Pego da dona. A ermidinha de S. Joaquim branquejava no cabeço, nuazinha e cândida...

(continua...)

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