Por Raul Pompéia (1882)
— Ora, aconselhar-se!...
— Vou mandar chamar o chefe de polícia... — Mande!... Mande!... Mande!...
O mordomo retirou-se. O marquês foi até uma das janelas da sala.
O sol acabava de levantar-se e trespassava o arvoredo do parque com largas lâminas de luz vermelha. Na espaçosa sombra que projetava o palácio, estava muita gente olhando para cima, na direção da corda pendurada ao gancho da janela. O marquês olhou na mesma direção e descobriu a corda. — Ah! — disse consigo. — Por ali subiram os miseráveis!
Depois voltou a vista para curiosos do parque e pôs-se a procurar involuntariamente o ladrão naquela multidão. Cada cara embasbacada afigurava-selhe a de um malfeitor disfarçado.
— Ah! Se o apanho! — murmurou.
E, tendo ouvido passos na sala, saiu da janela. Era o mordomo.
— O chefe de polícia vem? — perguntou-lhe o marquês.
— Vai chegar em um momento.
— Bem. Veremos se esta polícia serve para alguma coisa. — Creio que a polícia descobrirá tudo...
Passado algum tempo, um criado apareceu na sala e anunciou o sr. doutor Louro Trigueiro, chefe de polícia.
— Diga-lhe que entre — mandou o marquês.
O criado retirou-se.
Impaciente, o sr. d’Etu deixou o mordomo e correu ao encontro do chefe de polícia. Meteu uma cabeçada no reposteiro para não perder tempo em afastá-lo...
— Vi! — exclamou involuntariamente.
Acabava de dar um encontrão em alguém. Do lado oposto do reposteiro ouviram-se algumas pragas mal contidas.
As mãos de duas pessoas levantaram a mesma ponta de pano, e o marquês esbarrou no chefe de polícia.
Não move tempo para explicações a propósito da cabeçada.
— A sua presença é necessária aqui, sr. doutor.
— Sr. marquês —, respondeu graciosamente o chefe, para tudo...
— Houve um roubo no palácio!... Roubaram-me um anel, um anel, sr. doutor!
— E muitas jóias do sr. duque — concluiu o mordomo, notando que o marquês só se incomodava consigo.
— É grave — disse o chefe de polícia, abandonando o sorriso cortês de que se revestira ao entrar, e tomando uma seriedade de Javert.
— Gravíssimo! — superlativou o marquês —, pois um anel!...
— E tantos adereços!... — emendou ainda o mordomo.
— Onde está o armário que disseram-me que se arrombara?...
O marquês e o mordomo mostraram ao Dr. Louro o arrombamento, as janelas que haviam aparecido abertas, a corda...
— Um caso de roubo... — murmurou o chefe de polícia, diagnosticando com uns ares de quem entende...
— De quem se desconfia? — interrogou ele, voltando-se para o mordomo.
— Sr. doutor, não quero aventurar...
— Eu desconfio de todos! — exclamou precipitadamente o marquês.
— Como não há criminoso apontado por sérias aparências, vejamos os primeiros responsáveis... mas... antes disso... o sr. duque de Bragantina partiu para Anatópolis?...
— Não, senhor, — respondeu o mordomo.
— Não partiu? — perguntou admirado o marquês.
— Não, senhor... O sr. duque resolveu adiar a viagem...
— Então já lhe comunicaram?... — perguntou o chefe de polícia.
—O sr. duque está em casa do sr. marquês de *** e como deve chegar daqui a uma ou duas horas pareceu-me bom não incomodá-lo com...
— Seria, na verdade, inútil... — concordou o chefe.
— Mas, antes da chegada do sr. duque, devemos... — começou o mordomo.
— Sim, devemos quais são os primeiros culpados de se haver dado o roubo — concluiu pausadamente o chefe de polícia.
O mordomo ofereceu cadeiras ao marquês e ao sr. Louro Trigueiro e conservou-se respeitosamente de pé.
O marquês sentou-se e cravou os cotovelos nos joelhos, apertando a cabeça entre as mãos. Nesta posição conservou-se imóvel.
O chefe de polícia, depois de refletir alguns momentos, olhou para o mordomo, e, com uma toada de inquisidor, perguntou:
— Quem é o encarregado de guardar as jóias do sr. duque?
— É o seu particular...
— Onde são guardadas as jóias?
— As jóias da coroa guardam-se numa burra. Quando, porém, o particular não vai guardá-las, à burra, são depositadas provisoriamente naquele armário, que é lugar seguro; porque, a não ser em caso extraordinário, só pessoas de confiança têm estrada nesta sala...
— Que pessoas de confiança?...
— O particular, o criado Inácio ou o Joaquim que varrem e espanam o palácio...
— São estes criados os encarregados do fechamento das janelas... não é assim?
— Sim, senhor.
— Bem... Agora, diga-me: quem foi que guardou no armário, ontem à noite, as jóias do sr. duque?...
— Foi um criado de muita confiança a quem, por estar com o amo em casa do sr. marquês de ***, o sr. duque entregou as jóias e mandou...
— Este criado entregou as jóias ao particular?
(continua...)
POMPÉIA, Raul. As joias da coroa. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17439 . Acesso em: 6 abr. 2026.