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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

— Ah, naturalmente! A Corte é hoje um dos centros mais aristocráticos do mundo. Nas províncias, em geral, não se faz idéia do que isto é... D. Branca interveio:

— Mas ainda não foi a Petrópolis, senhor visconde.

— Oh, então é preciso ir, é preciso fazer um passeiozinho à cidade dos reis... — tornou o banqueiro afetando um sorriso.

— Lá isso concordo — apoiou Valdevino Manhães, às voltas com o pincenê.

— Petrópolis é o complemento do Rio de Janeiro, ou antes, do Município neutro.

Evaristo quis dar um aparte; mas por prudência, engoliu a expressão. Ia desgostar o Santa Quitéria com uma alfinetada na monarquia. Para quê?

Já era tarde. O calor sufocava. Não se ouvia uma pisada na rua. Tudo quieto. Longe, para os lados da praia, tilintavam as campainhas dos bondes. Os dois rapazes do comércio tinham-se erguido para fumar um cigarro à janela. — "Como estava escura a noite!" murmurou um deles. O gás da sala dava uma luz preguiçosa, uma claridade de antecâmara. O piano, sempre aberto, esperava que alguém o fosse animar com as teclas muito alvas, muito novinhas.

O primeiro a retirar-se foi o visconde. Tinha cumprido o seu dever. Pedia licença...

Luís Furtado acompanhou-o à porta da rua, embaixo.

E aquela noite, que devia ser de festa e de regozijo pelo batizado da Julinha, acabou como todas as noites que não são de festa, nem de regozijo — tristemente, quase lugubremente.

Quando todos saíram, Luís Furtado abriu a boca num grande bocejo, que estrondeou na casa e acendeu um cigarro, cantarolando.

CAPÍTULO IV

— Com efeito! — exclamou, surpreendido. — Nem que se estivesse

esperando a volta de D. Sebastião... Ah!... Eu já estava resolvido a alugar o palacete do Friburgo!

— Agora, sim, senhor — disse Luís, batendo no ombro do amigo e rindo para Adelaide — agora vão dormir folgadamente na sua cama de casal, vão se regalar!

— Queres dizer, então, que passávamos as noites de olho aberto, no nosso belo quartinho? Estás muito enganado. Nunca dormi tanto, e a Adelaide melhor um pouco.

— Não segue-se, porém, que deixem de almoçar e de jantar conosco...

— Em primeiro lugar, um exame nos aposentos; depois, trataremos do almoço e do jantar.

— Já andamos por lá — disse D. Branca espevitadamente. — Sabem o que encontramos?

— Algum menino pagão... — adiantou-se Furtado.

—Algum fac-símile de inscrições hebraicas para presente ao desembargador? — Sério; vejam se podem adivinhar - insistiu a esposa do secretário.

Os dois homens puseram-se a pensar em qual teria sido o misterioso encontro das duas senhoras...

— Não sei - disse, por fim, o marido de Branca.

— Nem eu... - imitou Evaristo.

— Um irrigador de Ermarck, por sinal bem novinho.

— Que diabo quer isso dizer? - perguntou o bacharel com assombro.

Adelaide não se pôde conter e abriu numa risada sonora e gostosa, ocultando o rosto nas mãos. D. Branca, ante a ingênua pergunta de Evaristo, ria também para outro lado, enquanto o secretário justificava a ignorância do amigo dizendo que o aparelho de Ermarck ainda não era bastante conhecido no Brasil e que, por isso, o Holanda tinha toda a razão... E acrescentou com ironia:

— São muito maliciosas as mulheres!

Mas Evaristo não descruzava os braços, estatelado, vendo as duas senhoras

rir.

— Então, é que já sabes o emprego do irrigador, Adelaide! — Eu?

Novo acesso de riso sufocou a esposa do bacharel, como se lhe estivessem a fazer cócegas.

— Sabem que mais? — disse afinal Evaristo. — Os ingleses, que deixaram o irrigador é por que o irrigador não presta! Vamos ao que interessa.

Já Luís Furtado galgava o primeiro degrau da escada que ia ter no segundo andar. Evaristo, Adelaide e D. Branca o acompanharam, todos risonhos, a falar dos ingleses.

Eram trinta degraus estreitos, que subiam em curva, gemendo sob os pés, iluminados por uma grande clarabóia de vidro.

O andar superior compunha-se de uma sala de frente, alcova, corredor e dois quartos menores que a alcova, comunicando-se. Havia também um terraço com grades de ferro, onde se erguia uma espécie de quiosque para o water-closet.

O secretário começou a inspeção pela frente. As janelas estavam abertas, deixando ver a praia de Botafogo; a enseada, não muito longe, o Pão de Açúcar e os morros de Niterói dando um aspecto grandioso e selvagem à baía. À direita, erguido a prumo, o perfil negro do Corcovado atraía os olhos, em linha reta para o alto, como um dedo enorme de gigante apontando o azul sereno. A vista alcançava, depois, outras montanhas, e entre elas, o cemitério de São João Batista, salpicado de túmulos brancos, numa simetria pitoresca e lúgubre. Àquela hora, distinguia-se grupos de pessoas, grupos negros em marcha, sumindo-se e aparecendo entre os mausoléus.

À esquerda, telhados e hortas.

(continua...)

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