Por Adolfo Caminha (1893)
Entraram as duas para a sala de jantar. A Mendes pediu água, e, dando estalinhos com a língua, acariciando a mão de D. Terezinha, disse muito baixo, quase ao ouvido, engrossando a voz, que precisava de dez mil-réis para pagar a costureira e vinha pedir-lhos até o fim do mês. A Teté não imaginava: tinha em casa o essencial para a feira do dia seguinte! O Mendes pouco se importava que houvesse ou não dinheiro... Tivesse paciência, sim? Pagava, sem falta, no fim do mês.
Disse que os meninos andavam descalços, que as despesas eram muito grandes, alegou o preço da carne... Um horror! Não se podia num tempo daquele comer com pouco dinheiro. Não sobrava nem para um vestido!
Também estava muito “quebrada”, disse D. Terezinha compungida. O Janjão tinha feito um ror de despesas naquele mês; dava graças a Deus quando lhe vinha um dinheirinho do Pará, de rendas... Só ao velho Teixeira, um que emprestava dinheiro a juros, deviam duzentos mil-réis. Em todo caso sempre ia ver se arranjava pra cinco mil-réis. Era um instantinho.
Foi depressa à alcova, abriu com estrondo a gaveta da cômoda e daí a pouco voltou com uma nota de 5$000, muito velha e ruça, quase em frangalhos, que entregou à outra. Era só o que tinha para servi-la.
— Muito obrigada, minha santa, não sabe quanto lhe agradeço... No fim do mês, sem falta.
E guardando o dinheiro na velha bolsinha de couro da Rússia:
— Agora deixe-me ir.
— Por que não fica para jantar, insistiu D. Terezinha. O Janjão está chegando, mande um recadinho ao Dr. Mendes.
— Qual, filha, não posso. O Mendes é muito enjoado; fica para outra vez, sim?
Beijaram-se depressa e a mulher do juiz municipal retirou-se com seu passo miudinho, arrepanhando o vestido.
— Apareçam, hein? disse da rua. Amor com amor se paga...
E desapareceu, como um foguete, na esquina.
Às quatro horas entrou o amanuense com a papelada debaixo do braço, muito suado, assobiando a Mascotte.
A Campelinho tinha se escapulido: que eram horas de jantar.
Maria do Carmo sentara-se ao piano e ensaiava a Juanita.
D. Terezinha, essa andava para dentro, às voltas com a cozinheira, provando as panelas, ralhando.
João apenas sacudiu os papéis sobre o sofá, foi direito à afilhada.
— A santa está tocando a Juanita? Que mimo, Jesus! Como se pode ser bonita assim!
E sem dar tempo a Maria de defender-se, pôs-lhe um grande beijo na face. A normalista sentiu um braseiro no rosto ao contato da barba espinhenta do amanuense, e um bafo insuportável de álcool tomou-lhe as narinas. Era a primeira vez, depois que saíra da Imaculada Conceição, que o padrinho lhe beijava em cheio na face. O amanuense tinha-se aproximado devagarinho, de mãos para trás, e, de repente, tomando-lhe a cabeça entre as mãos fedorentas a cigarro, beijou-a perto da orelha, continuando cinicamente a assobiar.
Ela apenas pôde dizer — padrinho! agarrando-se à cadeira de mola. Ficou muito séria, a limpar o rosto com a manga do casaco. Ah! mas dentro, nas profundezas da sua alma teve um ódio imenso àquele homem nojento que abusava de sua autoridade sobre ela para beijá-la! Fosse outro, ela teria correspondido com uma bofetada na cara... Mas que fazer? Era seu padrinho, quase seu pai, devia aturá-lo, tinha obrigação de submeter-se, porque estava em sua casa, comia de seus pirões, e o papai lhe pedira muito que o respeitasse. A princípio até o estimava, não o achava mau completamente; agora, porém, que uma espécie de instinto irresistível a impelia para o Zuza, agora que o estudante ocupava um lugar no seu
coração, enchendo-o quase, o padrinho ia-se-lhe tornando repugnante e desprezível. Não podia chegar-se a ele, vê-lo de perto, encará-lo frente a frente, sem um profundo e oculto frenesi. Um homem que não cuidava dos dentes, que não se banhava, um bêbado!
Esteve folheando o livro de músicas automaticamente, sem se mexer, sem dar palavra, esperando que João se retirasse da sala. João, porém, bateu o postigo com força, cambaleando, dando encontrões nos móveis, aproximou-se outra vez da afilhada e, num movimento abrutalhado, abraçando-a por trás, curvando-se para a frente, sobre ela, chimpou-lhe outro beijo, agora na boca, um beijo úmido, selvagem, babando-a como um alucinado...
Maria quis gritar sufocada, mas o amanuense, tapando-lhe a boca, ameaçou: — Nada de gritos, hein! nada de gritos... Eu sou seu padrinho, posso lhe beijar onde e quando quiser, está ouvindo? Nada de gritos!
E Maria, com os lábios muito vermelhos, como a polpa de uma fruta, debruçada sobre o piano, desandou a chorar nervosamente.
João da Mata tinha bebido sofrivelmente na bodega do Zé Gato onde costumava aquecer os pulmões ao voltar da Repartição. Nesse dia excedeu-se, tomando em demasia, porque já lá estava o Perneta, um dos correios, que usava a muleta, que também gostava da pinga e escrevia versos para o Judeu Errante.
Num momento deram cabo duma garrafa em cujo rótulo lia-se Reclame atraente como visgo: Cumbe legítima!
E que loquacidade! Falaram por três deputados brasileiros sobre poesia e política.
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. A normalista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16512 . Acesso em: 27 mar. 2026.