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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

E eram exatamente esses artigos, de que mais se orgulhava, que reputava melhor, que lia e relia aos amigos, chamando-lhes a atenção para o fraseado cheio, para as referências sábias e o rebuscado do estilo, os mais raros e os menos apreciados. O público, ignorante e grosseiro, preferia as pilhérias e as críticas mordazes, que iam subindo de tom até ao diapasão da descompostura, degenerando em maledicências e calúnias. Tinha, porém, uma justificação para esses excessos: a necessidade de não poupar o inimigo, para não lhe morrer às mãos.

Quando chegava o paquete e o Democrata aparecia, pequeno, massudo e mal impresso, coberto de pastéis e falhas, como duma lepra incurável, toda a gente queria saber se o Constante leitor, o pseudônimo do Chico Fidêncio, escrevera a sua carta, datada de Silves, com quem bulia, se desancava o padre José ou o subdelegado, se falava na Luísa ou na D. Prudência, se contava os novos amores do vigário, ou descobria as recentes ladroeiras do escrivão da polícia.

Apesar desses triunfos, Francisco Fidêncio Nunes sentia que pisava em terreno falso. Não contava com as simpatias da população, e teria de decidir-se em breve a procurar outro abrigo para a sua miséria e para o seu ideal de liberdade religiosa, tão mal amparado na povoação do lago Saracá. Não podia deixar de pensar que fora enganado pelo Filipe do Ver-o-peso: Sempre era galego, e bastava.

O vigário vingava-se das correspondência, fazendo-lhe uma guerra de morte. O coletor, que era o homem mais importante do lugar, não gostava dele, embora lhe tivesse medo. As mulheres eram-lhes hostis, não liam as suas cartas, não viam senão o homenzinho feio, que desrespeitava os santos e pregava heresias. Estranho à terra, sem ligações de família na província, sem a tradição dum passado qualquer que o protegesse, reconhecia-se fraco e dispunha-se a abandonar o campo, quando surgiu de chofre o segundo período da questão religiosa, ferida entre os bispos do Pará e de Olinda e a maçonaria.

A gente de Silves não tinha interesse algum na questão, mesmo porque o seu vigário, um pândego, valha a verdade! não se ocupava muito dessas coisas de Igreja. Mas o espírito de partido, muito vivo nas povoações pequenas, o amor da novidade, o instinto de contradição e de luta que divide os homens, mesmo desinteressados e indiferentes ao assunto da discussão, fracionaram a população em dois grupos. Um formara-se dos maçons, dos parentes dos maçons, dos inimigos pessoais do vigário e dos rapazes mais ardentes e mais instruídos. O outro constituíra-se com os homens timoratos e pacíficos, que, de preferência às inovações, queriam viver com os padres, acreditando, ou fazendo acreditar, em tudo o que esses exploradores da humanidade dizem. Francisco Fidêncio tornou-se naturalmente chefe do partido maçônico.

A luta, a falar a verdade, não passara do terreno do palanfrório, consistira unicamente em discussões fortes à porta do coletor ou junto as procissões e Nossos-pais de balandrau e tocha. Francisco Fidêncio era irmão do Santíssimo. A sua brilhante opa encarnada, que por acinte tinha na sala, exposta a todas as vistas, aparecia em toda a parte. Padre José bufava. Por fim tomara o pretexto de tão grande irreverência para acabar com festas e procissões que lhe davam muita maçada. Mas o melhor fora que o correspondente do Democrata lucrara em questão.

Primeiro que tudo, dedicando as suas cartas ao assunto da pendência que dividia os espíritos, atacando o papa, os bispos, os padres todos e especialmente os jesuítas, poupava os habitantes da vila, com exceção dos vigário. Mereceu com esse procedimento que se corresse um véu sobre as críticas antigas, amortecendo os ódios dos ofendidos. Não era mais o escrevinhador insolente, que se ocupava da vida privada de cidadãos conhecidos, achincalhando a reputação do capitão Fulano ou do negociante Sicrano. Passava a ser um escritor preocupado de questões sociais, um sujeito que zurzia os padres, uma espécie de adversário platônico. Os padres que se defendessem!

As antigas vítimas rejubilavam-se, descansadas, livres do temor, esforçandose por esquecer e fazer esquecer as descomposturas recebidas no Democrata. Eram agora elas mesmas que chamavam a atenção pública para os artigos do professor, que os comentavam, indagando hipocritamente se seria verdade tudo aquilo que se dizia do padre José, alardeando indignação, exclamando que tais monstruosidades eram dignas de severo castigo.

Francisco Fidêncio contava à redação do Democrata, por miúdo as pândegas colossais do vigário, as aventuras noturnas, as bambochatas em canoa, as orgias nas praias de areia, ao tempo da desova das tartarugas. Citava nomes, falava da Chica da outra banda, da mulher do Viriato, da Luísa, e até da D. Prudência, veladamente - uma certa Imprudência. Dizia que o vigário bebera o dinheiro da província com as mulatas, em vez de consertar a Matriz, que seduzia as beatas, que prostituía as confessadas, que era ministro de Barrabás... o diabo!

Padre José ficava furioso. Ameaçava quebrar as bitáculas àquele safado, e caluniava-o, espalhando que Chico Fidêncio fora condenado no Rio por gatuno e expulso do corpo de permanentes do Pará por maus costumes, pecados contra a natureza.

(continua...)

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