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#Romances#Literatura Brasileira

Uma Lágrima de Mulher

Por Aluísio Azevedo (1880)

As mulheres, que se desacreditavam na alta sociedade, vinham, repelidas pelos competentes maridos e pelas competentes famílias, refugiar-se nessa roda; os filhinhos, ou melhor, as causas inocentes desta debandada, chegavam juntamente com as mães repelidas e com elas se educavam no mesmo meio.

Estas malfadadas crianças cresciam e, quando, por fraqueza ou por falta de pundonor, não fugiam envergonhadas, formavam a parte moça da Sociedade Flutuante. As vagas dos maridos eram razoavelmente preenchidas e jamais os filhos conheciam os verdadeiros pais.

Era mais uma roda de enjeitados do que uma roda social.

Compunha-se especialmente de destroços e de vergonhas — ali o que era um resto era um embrião — ou tinha já deixado de ser ou ainda não era; ninguém tinha um lugar definitivo, porque logo que chegasse a alcançá-lo desertava incontinenti.

Podia também aquilo ser considerado como um curso preparatório; habilitavam-se ali para poder galgar um lugar fora, e só na hipótese de nada encontrar exteriormente, recorriam à Sociedade Flutuante, como remédio extremo ou como último porto de salvação.

E em verdade é que, até certo ponto, achavam os fugitivos, na obscuridade dessa roda, abrigo seguro para as suas vergonhas e pesares. Esses eram os desesperançados.

Concluí-se que aquilo podia ser ou um túmulo, de qualquer modo seriam trevas, à semelhança do homem, cujos extremos são sempre sombras; podia ser um princípio ou um fim, porém nunca um meio, isto é, uma posição social.

Em público, todos odiavam essa sociedade; em particular muitos a procuravam e ninguém, que pública ou particularmente, queria, por gosto, ali ficar para sempre. Quem ali permanecia era por não obter absolutamente outro recurso.

Desse feito, pensava Maffei, e tinha para si que o casamento de Rosalina com um fidalgo arruinado abriria na nobreza uma brecha assaz larga para ele evadirse também. — Um fidalgo, quando empobrece, continua o burguês a pensar, em geral cai e com o choque abre na sua classe uma fenda por onde vai se introduzindo a burguesia.

Frágil e desgraçada coisa é a nobreza que precisa de dinheiro para não rachar.

Era com essa fenda que contava o antigo pescador. E contava muito bem, porque os homens, ao contrário dos gases, quanto mais pesados mais sobem.

A Sociedade Flutuante avultava de dia para dia; ultimamente, tornara-se até bastante conhecida e um tanto censurada, e, se bem que afetasse ótima aparência, a polícia tinha-a de olho.

Os seus mais perigosos detratores eram justamente os seus próprios adeptos — diziam mal uns dos outros e, a falta que este, com mil cuidados se esforçava por encobrir, aquele lha devassava pela sorrelfa.

Iam contudo vivendo e aliás regularmente.

O maior desejo das raparigas que lá caiam era casar fora dessa roda ou com alguém que ali estivesse por mera curiosidade, como simples amador. Se o logravam, saíam sem sequer voltar para trás a cabeça — desapareciam por uma vez, e faziam bem.

Quem mais gostava da Sociedade Flutuante eram os rapazes solteiros. — Os amores, como diz Dumas, são aí mais fáceis do que na alta sociedade e mais baratos do que na baixa.

Isto compreende-se com os amadores, com os que a freqüentavam por espírito de - curiosidade, espécie de sócios honorários, porque com os outros, isto é, para os sócios legítimos e efetivos, não era essa sociedade mais do que um recurso sofrível, em falta de outro melhor.

Estes eram os velhos ou parvos.

Se era um nobre que vinha arruinado e gasto da alta sociedade, chegava cansado e só queria que lhe dessem uma cadeira para descansar ou uma cama para morrer; e se o sujeito era nascido aí e se tivesse deixado ficar, provaria com isso que era simplesmente parvo e então só desejava que o deixassem viver na lama em que tinha nascido.

Finalmente, velho ou moço, nobre ou parvo, o certo é que para fazer parte da Sociedade Flutuante eram necessárias duas coisas principalmente: a primeira — não ter juízo, a segunda — não ter brios.

Agora que fica conhecida a roda de Maffei, lembro que há quatro anos vivia nela Rosalina.

CAPÍTULO V

O baile continuava crepitante a devorar saúde, dinheiro e reputação, como um incêndio em que já ninguém se entende e cada um só cuida de si; com a diferença, porém, que no sinistro do fogo procurava-se um meio de salvar e no do baile se procura um meio de perder.

O álcool, combustível perigoso, aumentava progressivamente a densidade do incêndio; as garrafas vazias tinham já maioria sobre as cheias - sintoma infalível de desordem.

Assustador era o aspecto do salão de dança – sobreerguia-se em espirais alcoolizadas e insalubres um vozear confuso e bestial, que se podia chamar o fumo da incineração das consciências.

Entretanto, na outra sala, o jogo, como uma pústula, ia apodrecendo surdamente o que alcançava.

A razão não tinha para onde fugir — de um lado o fogo e do outro a putrefação.

(continua...)

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