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#Romances#Literatura Brasileira

O Livro de uma Sogra

Por Aluísio Azevedo (1895)

E os mórmons justificam-se com os exemplos da Bíblia: Lamech, filho de Methusael, teve duas mulheres — Ada e Zilia; Jacob quatro; Abrahão muitas mais; David todas as que herdou de Saul, e Salomão nunca menos de mil.

E entendem que só a poligamia pode realizar o grandioso fim do matrimônio — multiplicar e apurar a espécie; e que ela é a regra instintiva e natural em toda a extensa ordem dos mamíferos que povoam a terra, e que ela é ainda a garantia da felicidade conjugal e dos direitos fisiológicos e sociais da descendência.

Não há dúvida! Tudo isso pode ser muito justo e muito razoável, apenas acho que os senhores mórmons legislaram conforme os seus interesses de homem e conforme os interesses da sua descendência, mas sem pensar absolutamente nas delicadas conveniências morais e físicas da mulher. E como a minha única preocupação era o interesse de minha filha e não o do marido que ela viesse a ter, vi e apreciei o revolucionário dogma social pelo lado contrário ao ponto de vista dos autores, o que fez com que a minha impressão fosse diametralmente oposta à deles. De resto, quando fosse com efeito o casamento polígamo o melhor e mais aceitável de todos, iria eu carregar com Palmira para Salt Lake City, abandonando a minha pátria, os meus amigos e os meus interesses no Rio de Janeiro? E para quê? para a levar a um sultão? para a deixar cair no serralho de Utah, como se deixasse cair uma franga dentro de um galinheiro?

Não! De tudo que li sobre os mórmons, só uma coisa me aproveitou, foi o desejo de consultar a Bíblia a respeito do que era possível fazer pela felicidade de minha filha. E aí, sim, encontrei afinal a chave do problema que me atormentava.

Foi na Bíblia, foi nessa inesgotável fonte de consolações para os que sofrem, foi nesse eterno poema de amor, que me orientei sobre o único caminho que tinha a tomar.

Depois da lição dos capítulos XII e XV do Levítico, convenci-me de que o mal do nosso casamento não estava precisamente na monogamia, mas só no meio de exercê-la; convenci-me de que um marido, para não perder a ilusão do seu amor conjugal, precisa afastar-se da mulher em certas ocasiões. Eis tudo!

Como afinal é sempre intuitiva e simples a base dos maiores problemas da nossa vida! Mas prossigamos:

A eterna permanência de um homem ao lado da esposa obriga-os a prosaicas intimidades inimigas do amor, (amor sexual) e acaba fatalmente por azedar-lhe o gênio e trazer a ambos o fastio, o tédio, a completa relaxação do desejo, e afinal a explosão dos caracteres em perene atrito, e as brigas, a troca violenta de injúrias, e, muita vez, se os desgraçados por falta de educação não souberem conter os seus ímpetos nervosos, o pugilato e até o homicídio.

“L´amour finit par s’aigrir, comme le vin qui reste trop longtemps en bouteille”, reza a velha filosofia dos provérbios.

O primeiro ponto da minha questão era, pois, fazer desaparecer a imoralidade de dentro do casamento monógamo. Ora, este casamento era imoral e trazia o tédio e o cansaço por parte de cada um dos cônjuges, só porque depois do desempenho do primeiro filho, o pai e a mãe incompatibilizavam-se entre si para a concepção perfeita de um novo descendente. Tratei pois de descobrir em que consistia a causa dessa incompatibilidade. Não foi preciso grande esforço de inteligência para dar logo com ela: É que o entusiasmo sensual, o amor, de um pelo outro consorte, era um puro produto da imaginação e do desejo de ambos, e desde que os dois se não separavam nunca, nem só se podiam desejar de novo, como igualmente não podiam manter, de parte a parte, a mútua e cativante impressão que os havia ligado.

O instinto da conservação da espécie, que é o amor, deve ser de qualquer modo tratado como o instinto da conservação pessoal, que é a fome. Não há estômago que resista a faisão-dourado todos os dias; o melhor acepipe, se não for discretamente servido, enfastiará no fim de algum tempo. O mesmo acontece no matrimônio: os cônjuges acabam invariavelmente por se enfararem um do outro, não pelo uso que fazem do seu amor, mas pelo abuso mútuo da convivência e da ternura.

Se tens um prato predileto, que se dá bem com o teu paladar e com o teu estômago, e o qual não podes ver sem sentires a boca lubrificada pelo apetite, não abuses desse estimável prato, para que ele se não inutilize para o teu desejo, e para que possas continuar a saboreá-lo com o mesmo gosto; e principalmente não comas dele sem boa vontade.

(continua...)

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