Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
“Às dez horas da manhã, achando-se reunido o clero da freguesia da Candelária, presidido pelo seu reverendo pároco, muitos cônegos e mais eclesiásticos seculares e regulares e a imperial irmandade, chegou o Sr. bispo capelão-mor conde de Irajá, e sendo recebido à porta pelo reverendo pároco, subiu com dificuldade (pelo imenso povo que se achava apinhado no trânsito, a fim de assistir ao ato) as escadas do consistório, onde já se achava o monsenhor e o vigário geral, cônegos Marinho e Chaves, mestres de cerimônias, e o delinqüente junto ao altar do lado da Epístola. S. Ex.a Rev.ma fez a oração ao Senhor depositado em cima do altar, coberto com um rico véu roxo, e foi sentar-se no fraldistório, ao lado do Evangelho, não querendo fazê-lo no meio do altar, como era do cerimonial, pelo respeito, humildade e acatamento à mesma sagrada imagem. Paramentado de amito, cruz peitoral, estola, pluvial roxo e mitra amarela, sentado no seu fraldistório, mandou ao mestre de cerimônias, o cônego Moreira, que lesse em voz alta a enérgica e devota pastoral, na qual dava provas não equívocas do seu zelo, religião e cuidado pastoral na manutenção do culto religioso, que sustenta no governo da sua vasta diocese. Acabada a leitura, o mestre de cerimônias conduziu o delinqüente aos pés de S. Ex.a, o qual, pondo-se de joelhos, disse a confissão geral. Acabada a qual, S. Ex.ª, de pé e sem mitra, o absolveu da censura, na forma do ritual romano. O delinqüente depois recitou o símbolo dos apóstolos, com o artigo da constituição de Pio IV, na forma seguinte, pondo a mão sobre o missal: ‘Firmemente afirmo que se devem ter e reter as imagens de N. S. Jesus Cristo e da sempre Virgem Maria Mãe de Deus, e dos outros santos, e bem assim que a essas imagens se deve dar a devida honra e veneração.’ Isto feito, o delinqüente tomou o seu lugar ao lado da Epístola, e S. Ex.ª prostou-se no fraldistório com mitra e os cantores começaram a ladainha de todos os santos, cantada por todos com a maior devoção possível, estando todos de joelhos. Acabadas as ladainhas, S. Ex.ª, de pé e sem mitra, cantou o Pater Noster e a oração pro Eclesia. E ajoelhando-se depois com ambos os joelhos, beijou com toda a reverência e acatamento a mão direita da sagrada imagem, que se achava descoberta. O mesmo praticaram o clero secular e regular, a irmandade, o delinqüente e mais pessoas que se achavam presentes. S. Exª mandou que a sagrada imagem estivesse todo o dia exposta à veneração de todos os fiéis, a fim de terem a doce consolação de adorar e beijar seus sagrados pés. É deste modo que S. Ex.ª Rev.ma deu um público testemunho da sua devoção e respeito à religião católica apostólica romana, que felizmente e de coração professamos.”
Ainda alguns esclarecimentos, e completa ficará a história do desacatador.
Terminada a cerimônia religiosa que os meus companheiros de passeio acabam de ver descrita, quis o vigário geral esperar que o povo se retirasse para sair com o delinqüente. Mas esperou debalde. A multidão de curiosos permanecia postada em frente da igreja com o empenho de conhecer o infeliz, e conseqüentemente aquele digno sacerdote resolveu-se a escapar com o penitente por uma porta lateral do templo. Sendo, porém, pressentido e acompanhado pelo povo que murmurava, apressou-se e conseguiu entrar em sua casa na rua da Assembléia (que ainda se chamava da Cadeia), diante da qual ficaram de vigia muitos homens do povo.
Às oito e meia horas da noite o infeliz Augusto Frederico Correia, supondo-se livre de qualquer perigo, saiu da casa do vigário geral, o monsenhor Narciso da Silva Nepomuceno, e acompanhado de um caridoso sacerdote, seguia pela rua da Assembléia, quando, ao entrar no largo da Caneca, viu-se perseguido duma turba ameaçadora, que entre vaias bradava: “Fora, judeu! Fora, excomungado!” E em tão grande risco se achou, que se homiziou no hotel de Itália, que então era na praça da Constituição, e ali ficou até à tarde do dia seguinte, em que o chefe de polícia o foi buscar e o levou em sua carruagem ao Arsenal de Marinha, entregando-o à autoridade competente, com a declaração de não o deixar preso, mas somente abrigado por alguns dias a bordo da fragata de guerra Príncipe Imperial.
Eis o fato absolutamente como se passou e em toda a simplicidade e nudez. Não preciso dizer quanto me horrorizou o sacrilégio perpetrado pelo miserável Correia, e quanto me horrorizo ainda à simples lembrança dele. É a única apreciação que me atrevo a fazer desse desacato insólito e maldito. Quanto ao mais, não adiantarei palavra. Creio firmemente que Deus Nosso Senhor muitas vezes castiga os grandes pecadores neste mundo. Mas, se os ataques e convulsões que sofreu na igreja da Cruz aquele infeliz sacrílego foram ou não foram um castigo de Deus, não sei. Bem pode ser que o fossem. Se, porém, de certo o foram, só Deus o sabe.
O que me cumpre acrescentar é que Augusto Frederico Correia
era notável pela sua ignorância, e que deixou irrecusável prova disso na
seguinte carta que escreveu, achando-se a bordo da fragata Príncipe Imperial.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.