Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Tratarei em primeiro lugar do acontecimento escandaloso de que proveio a justíssima e louvável idéia da festa do Senhor Desagravado, e contarei o princípio da história, copiando textualmente alguns períodos da erudita pastoral do venerando bispo do Rio de Janeiro, datada de 10 de agosto de 1815 e relativa a esse caso.

“Na igreja da Santa Cruz dos Militares desta corte, andando-se em obras, aconteceu que no dia 29 do mês de julho ultimamente findo, pelo meio-dia, um oficial de pintura, que trabalhava nas referidas obras fosse ao consistório onde se achava a imagem do Senhor Jesus morto. E aí abrindo a cortina que encerrava e sacrossanta imagem (ah! quem o pensara de um católico?) escarnecera, blasfemara e desacatara a veneranda imagem!

“O desacato de que falamos foi seguido de um efeito prodigioso. O seu infeliz autor, sobre sacrilégio, foi também incrédulo. E à semelhança daqueles que blasfemaram do Nosso Salvador na hora do seu martírio, dizendo-lhe que se era Deus, descesse da cruz para acreditarem, o desgraçado dizia, ao passo que desacatava a imagem, e negava a divindade daquele que essa imagem representava. ‘Se tens poder, tira-me a vida neste momento.’

“Mal o infeliz consumara o atentado, que a razão o abandonou, como que espavorida da profundidade do abismo a que chegara. Ficou ele, diante, em pouca distância da santa imagem, estupefato, com a fisionomia notavelmente alterada e tendo aberta a boca (que acabava de insultar o Céu) e sobre ela a língua estendida!

“Depois deste sucesso, outro da mesma natureza, porém de uma maior gravidade, teve lugar. O infeliz, tornando a si, achava-se pintando a urna de N. S. das Dores na igreja, quando, precisamente às 3 horas da tarde do referido dia, soltou dois fortes gritos que assustaram grandemente os outros trabalhadores. E imediatamente caiu por terra, sem sentidos, quase morto, e sofrendo em todo o corpo horríveis contorções! Neste estado permaneceu até perto da noite, quando foi levado para sua casa. Não consta que padecesse tão grave mal em nenhum tempo, e nem se conhece nenhuma causa precedente que o motivasse.

“Quando o desacato foi feito, as pessoas que o presenciaram exprobaram-no ao seu autor. Este, sofrendo dois dias depois um novo ataque, abraçou-se com uma imagem do Senhor Jesus crucificado e o mesmo fez no dia seguinte com a imagem das Dores de Maria Santíssima a quem saudou com um afeto filial. Assevera que não se recorda do que lhe sucedera nesse infausto dia 29 de julho e nos dois seguintes. Mas está pronto a renovar a sua fé à face da igreja que escandalizara, e a dar todo o gênero de satisfação que necessária for para reparar o mal que fizera, arrependendo-se e sujeitando-se às penas canônicas.”

O infeliz de quem se trata nesta pastoral chamava-se Augusto Frederico Correia, era natural dos Açores, tinha vinte e três anos de idade e ocupava-se no gessamento da igreja da Santa Cruz dos Militares, quando, no dia 29 de julho de 1815, cometeu os horríveis excessos de incredulidade e sacrilégio, ofendendo a imagem sagrada com palavras e com ações que devem ficar no esquecimento.

No dia 12 de agosto do mesmo ano de 1815, efetuou-se na igreja da Santa Cruz dos Militares o ato solene do desagravo da imagem sagrada de Jesus Cristo morto, conforme fora determinado na pastoral de 10 de agosto, e eis aqui uma descrição fiel dessa solenidade, descrição que copio tambem ipsis verbis de uma das nossas gazetas diárias.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...181182183184185...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →