Por Eça de Queirós (1888)
Então Carlos, caminhando rente ao muro, interrogou Melanie. Como viera o outro? que dissera? como se despedira?... Melanie não ouvira nada. O Snr. Castro Gomes e a senhora tinham conversado sós no pavilhão japonez. Á sahida é que vira o snr. Castro Gomes dizer adeus a madame, muito socegado, muito amavel, rindo, fallando de Niniche... A senhora, essa, parecia como morta, tão pallida! Quando o outro partiu, ia tendo um desmaio.
Estavam proximo do portão da Toca. Carlos retrocedeu, respirando fortemente, com o chapéo na mão. E agora todo o seu orgulho se ia sumindo sob a violencia da sua anciedade. Queria saber! E perguntava, deixava Melanie nas coisas dolorosas da sua paixão... Dites toujours, Melanie, dites! Sabia a senhora que Castro Gomes estivera com elle no Ramalhete, lhe confessára tudo?...
Claramente que sabia, por isso chorava - dizia Melanie. Ah, ella bem repetira á senhora que era melhor contar a verdade! Era muito amiga d'ella, servia-a desde pequena, vira nascer a menina... E tinha-lh'o dito, até já nos Olivaes!
Carlos curvava a cabeça na escuridão do muro. Melanie tinha-lh'o dito! Assim ella e a criada discutiam ambas, acamaradadas, o embuste em que andava presa a sua vida! E aquellas revelações de Melanie, que suspirava com o chale sobre o rosto, abatiam os ultimos pedaços d'esse sonho, que elle erguera tão alto, entre nuvens d'ouro. Nada restava. Tudo jazia em estilhaços, no lodo immundo.
Um momento, com o coração cheio de fadiga, pensou em voltar a Lisboa. Mas para além d'aquelle negro muro estava ella, perdida de chôro, querendo morrer... E lentamente recomeçou a caminhar para o portão. E agora, sem resistencia nenhuma do orgulho, fazia perguntas mais intimas a Melanie. Porque é que Maria Eduarda não lhe dissera a verdade?
Melanie encolheu os hombros. Não sabia: nem a senhora sabia! Estivera no Central como madame Gomes; alugára a casa da rua de S. Francisco como madame Gomes; recebera-o como madame Gomes... E assim se deixára ir, insensivelmente, conversando com elle, gostando d'elle, vindo para os Olivaes... E depois era tarde, já não se atrevera a confessar, toda enterrada assim na mentira, com medo do desgosto...
Mas, exclamava Carlos, nunca imaginára ella que fatalmente tudo se descobriria um dia?
- Je ne sais pas, monsieur, je ne sais pas, murmurou Melanie quasi a chorar.
Depois eram outras curiosidades. Ella não esperava Castro Gomes? não suppunha que elle voltasse? não costumava fallar d'elle?... - Oh non, monsieur, oh non!
Madame, desde que o senhor começára a ir todos os dias á rua de S. Francisco, considerára-se para sempre desligada do snr. Castro Gomes, nem fallava n'elle, nem queria que se fallasse... Antes d'isso a menina chamava sempre ao snr. Castro Gomes petit ami.
Agora não lhe chamava nada. Tinham-lhe dito que já não havia petit ami...
- Ella escrevia-lhe ainda, dizia Carlos, eu sei que ella lhe escrevia...
Sim, Melanie julgava que sim... Mas cartas indifferentes. A senhora levára o seu escrupulo a ponto de que, desde que viera para os Olivaes, nunca mais gastara um ceitil das quantias que lhe mandava o snr. Castro Gomes. As letras para receber dinheiro conservava-as intactas, entregara-lh'as n'essa tarde... Não se lembrava elle de a ter encontrado uma manhã á porta do Monte-Pio? Pois bem! Fôra lá, com uma amiga franceza, empenhar uma pulseira de brilhantes da senhora. A senhora vivia agora das suas joias; tinha já outras no prégo.
Carlos parára, commovido. Mas então para que tinha ella mentido?
- Je ne sais pas, dizia Melanie, je ne sais pas... Mais elle vous aime bien, allez!
Estavam defronte do portão. A tipoia esperava. E, ao fundo da rua d'acacias, a porta da casa aberta deixava passar a luz do corredor, frouxa e triste. Carlos julgou vêr mesmo a figura de Maria Eduarda, embrulhada n'uma capa escura, de chapéo, atravessar n'essa claridade... Ouvira decerto rodar a carruagem. Que afflicta paciencia seria a sua!
- Vai-lhe dizer que vim, Melanie, vai! murmurou Carlos.
A rapariga correu. E elle, caminhando devagar sob as acacias, sentia no sombrio silencio as pancadas desordenandas do seu coração. Subiu os tres degraus de pedra - que lhe pareciam já d'uma casa estranha. Dentro, o corredor estava deserto, com a sua lampada mourisca alumiando as panoplias de touros... Alli ficou. Melanie, com o chale na mão, veio dizer-lhe que a senhora estava na sala das tapeçarias...
Carlos entrou.
Lá estava, ainda de capa, esperando de pé, palida, com toda a alma concentrada nos olhos que refulgiam entre as lagrimas. E correu para elle, arrebatou-lhe as mãos, sem poder fallar, soluçando, tremendo toda.
Na sua terrivel perturbação, Carlos achava só esta palavra, melancolicamente estupida: - Não sei porque chora, não sei, não há razão para chorar...
Ella pôde emfim balbuciar:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.