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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Esta providência aproveita notavelmente aos pensionados. Porque, em verdade, no Brasil não há classe que mereça mais e receba menos do Estado do que a militar.

No nosso país o soldado, qualquer que seja a sua patente, se não tem outros recursos além do seu soldo, é sempre um pobre, não deixa por sua morte à mulher e aos filhos outro legado que não seja a memória de uma vida trabalhosa e árdua e a mais triste e completa pobreza, e às vezes mesmo a miséria.

Ainda bem que a nação raramente se esquece de acudir em auxílio das viúvas e dos órfãos dos seus valentes defensores, e que há uma instituição como a imperial irmandade da Santa Cruz dos Militares, que em grande parte concorre para o mesmo fim.

E esta irmandade oferece um novo e belo exemplo do que pode fazer e conseguir o espírito de associação bem dirigido e constantemente aplicado com solicitude. Homens pobres, mas dedicados e prudentes, levando a um cofre comum diminutas somas anuais, chegaram a realizar um fundo de importância elevada e um montepio considerável.

A irmandade da Santa Cruz dos Militares tinha, no fim do ano de 1861, uma receita de 596:603$129, procedente de juros de apólices e da conta corrente do Banco Hipotecário, dos aluguéis de prédios de suas propriedades e das jóias e diversas contribuições dos respectivos irmãos, e pôde assim pagar nesse mesmo ano, 38:792$961 de pensões às viúvas e órfãos dos irmãos finados.

Sem dúvida essa receita deve ter crescido e atualmente se apresentará um quadro ainda mais animador.

Essa prosperidade financeira dá pleno testemunho da sabedoria e do zelo com que a irmandade tem sido dirigida pelas suas administrações, que merecem por isso muitos elogios.

Pois olhem, nem todas as irmandades podem gabar-se de igual felicidade.

O culto divino está no caso do alto serviço da pátria, e há bom número de carolas que se aproveitam do serviço de Deus para cuidarem dos seus interesses materiais de um modo um pouco abusivo, assim como se contam notáveis patriotas de elevada posição social que se regalam à custa da nação, de quem se dizem beneméritos.

Que religiosos e que beneméritos uns e outros rezam o Padre Nosso unicamente por causa do venha-a-nós. Florescem por aí procuradorezinhos de irmandades a quem os santos de sua devoção têm a infelicidade de estarem sempre devendo, e apesar dos sacrifícios de tempo e de dinheiro que fazem, os tais devotos carolas agarram-se às procuradorias como sanguessugas aos corpos dos doentes, e nos atos de eleições brigam, cabalam e se esforçam para serem reeleitos, como se fossem candidatos a uma senatória!

Faz desconfiar tanta dedicação religiosa.

Faz desconfiar deveras, e pelo menos obriga um homem de consciência a ficar por alguns momentos refletindo sobre o caso.

Reflitamos, pois, meus companheiros de passeio; e para refletirmos tranquilamente façamos aqui uma pausa de suspensão.

V

A igreja da Santa Cruz dos Militares, fundada sobre as minas de um fortim por soldados que são homens de proezas, e mantida em todas as condições do culto divino, além deles primitivamente por navegantes, que são homens férteis em histórias curiosas, muitas vezes terríveis, e às vezes também mais ou menos exageradas, obtida ou conquistada pelo cabido da Sé fluminense e de novo restituída às irmandades a quem ela de direito pertencia, dava-me lisonjeira esperança de pingue colheita de interessantes tradições. Infelizmente, porém, o seu passado é um túmulo que escondeu para sempre as memórias do outro tempo.

O descuido e o cupim têm feito perder a lembrança de muitos fatos importantes, de romanescas lendas e mesmo de crenças e prejuízos populares, que seria agradável conhecer atualmente.

O descuido fez com que não se escrevesse o que devia ser perpetuado. O cupim devorou tesouros imensos nos arquivos públicos e de não poucas instituições religiosas.

Não sei se devo atribuir ao descuido ou explicar pela ação do cupim a pobreza de tradições do passado que se nota na igreja da Santa Cruz dos Militares. Mas é certo que somente encontrei nela a lembrança de fatos contemporâneos para referir aos meus companheiros de passeio.

Além das solenidades compromissais a que está obrigada a imperial irmandade da Santa Cruz dos Militares, celebram-se anualmente nessa igreja duas pomposas festas. Uma é a do Senhor Desagravado, outra a de N. S. da Piedade, e ambas têm uma origem que convêm não deixar esquecer.

São histórias do nosso tempo e que todos sabem. Não é isso, porém uma razão para condená-las ao silêncio. Porque todos as sabiam, deixaram talvez os nossos avós de escrever e perpetuar coisas do passado que se perderam completamente na memória dos homens.

(continua...)

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