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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Uma manhã encaminhou-se Lourenço á mata, armado com um facão afim de cortar sambaquis de que precisava para umas gaiolas, que lhe tinham encomendado. Este serviço ele o costumava realizar nas horas vagas. Trabalhar já era uma lei de seu espirito. Adquirir meios de comprar um engenho foi idéia que nunca mais o abandonou, antes constituiu a sua primeira e mais forte ambição. Por isso não perdia tempo, ou antes Marcelina o não deixava perder.

Tinham já passado muitos meses depois dos primeiros acontecimentos referidos nos capítulos anteriores. Colocado em novo centro e sujeito a novas leis morais, Lourenço avançava admiravelmente na requesta do bem, despertando cada dia em seus pais, por seu procedimento , novas esperanças e sendo para eles origem de inefáveis satisfações.

A transformação era obra das mãos deles, na qual se reviam não sem justo orgulho, como na fonte limpa, outr’ora charco, se revê o que lhe tirou as imundícies.

Por isso Lourenço era já, não somente estimado mas acariciado pelos dois consortes, que o consideravam o futuro esteio da casa, de seu natural fraca, o amigo e protetor deles, quando velhos, de seu natural forte.

A esse tempo não era a habitação de Francisco a única existente na estrada do Cajueiro. Obra de trezentas braças para o sul via-se outra de melhor parecer, de paredes de pedra e coberta de telha. Pertencia a um padre que, tendo por ali aparecido não se sabia como nem porque, fora convidado pelo sargento-mór João da Cunha para capelão do engenho. O padre Antônio escolheu aquele local para sua residência, desprezando uma boa morada que o senhor do engenho possuía dentro do cercado, e até a residência que lhe ofereceu na própria casa grande. Escolhido o local e feito o prédio, o padre chegou-se a João da Cunha e lhe disse que de há muito cumpria o voto de só morar em propriedade que fosse sua, e por isso lhe pedia declarasse por quanto vendia, com os respectivos terrenos, a casa feita. O sargentomór, que achará aquilo singular, e enxergará no ato inocente do padre um assomo de independência e altivez, não querendo por vaidade própria da nobreza daqueles tempos ficar por baixo, declarou que lhe dava de mão beijada casa e terrenos, e disso se lavrou termo.

O novo vizinho foi recebido com alvoroço pela família do Cajueiro. Quem era que por então não tinha em alta estima o sacerdote da religião santa do Crucificado?

Francisco, saltando de contente, para me servir da frase do povo, dizia a Marcelina que dava mostras de sentir dobrado prazer com a nova vizinhança.

- Bem-dita foi a hora em que abri meu sitio nesta estrada. Olhe lá como o Cajueiro está honrado. E daqui a pouco já não haverá quem não queira vir levantar sua casa aqui por perto. Basta saber-se que o capelão de Bujari quis antes morar no Cajueiro do que no engenho, para todo o povo correr para este ponto.

- É verdade, Francisco, é verdade, respondeu Marcelina. Temos agora bem perto de nós quem nos confesse e unja em caso de morte, o que Deus tal não permita.

- E que gloria tenho eu de se dizer que fui eu que fundei o Cajueiro! acrescentou o matuto. Se ele não prestasse, não havia de querer morar nele o capelão do engenho. O que eu quero é que a todo tempo se saiba que fui o

primeiro morador deste lugar. Seu padre Antônio já me fez esta justiça. Ainda ontem ele virou-se para mim, quando fui á vê-lo, em sua casa nova, e me disse que eu que tenho olho para conhecer lugar de boa moradia.

Por muito tempo levaram os moradores velhos a praticar neste sentido do novo morador. Da casa passaram ao homem físico, e do homem físico ao homem moral. Nada disseram dele na ausência que não pudesse ser dito na presença. Ainda hoje a maledicência não é qualidade característica do povo; naqueles tempos ainda o era menos.

O que Francisco disse do padre, foi que sua palidez e sua magreza indicavam que ele perdia noites de sono no serviço de Deus; Marcelina acrescentou que seus olhos pardos e como quebrados, seus sorrisos tristes, suas palavras simples revelavam consciência limpa, desprezo pelo mundo e bondade de coração. Francisco ajuntou que já uma vez em Olinda tinha visto um frade com o qual muito se parecia o padre Antônio, por sua estatura média, a cabeça grande, a testa larga, o rosto comprido, as faces descarnadas. Enfim Marcelina, recordando-se de uma novena na igreja do Senhor-dos-martirios, disse que a voz fraca e branda do sacerdote que fez ai uma pratica ao povo, era a mesma do padre Antônio.

Nem o marido nem a mulher andavam longe da verdade. O padre Antônio tinha sido frade, e foi provavelmente no tempo em que ainda o era, que se encontrou com ele o matuto. Um ano depois de secularizado, de passagem para Paraíba, aposentou-se no convento do Carmo em Goiana, aonde o foi convidar para dirigir a novena dos Martírios um negociante que o conhecia quando ele pertencia á recoleta do Recife. É natural que ai o tivesse ouvido Marcelina.

(continua...)

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