Por Bernardo Guimarães (1872)
Quão tristonhos e acanhados lhe pareceram então os horizontes e os outeiros de Congonhas do Campo à vista das risonhas campinas e largas perspectivas da fazenda paterna! como lúgubre e sombria se lhe afigurava a fachada do seminário em comparação do aspecto faceiro e festival da casinha da tia Umbelina!
Adeus, seminário!... adeus, místicas e devotas veleidades! adeus, rezas e penitências!... adeus, projetos eclesiásticos e sacerdotais! tudo isso fugiu-lhe de roldão da fantasia, como um bando de corujas, fugindo espavoridas da lôbrega caverna, onde o sol enfiou de chofre uma réstia de luz viva.
Eugênio sentia reverdecer em seu seio a flor da pura e inocente afeição da sua infância e aspirava-lhe os últimos e inebriantes perfumes.
Margarida, que já esperando Eugênio o tinha avistado de longe, foi ao seu encontro na ponte das paineiras. Ali, à vista daquelas mudas testemunhas de todos os seus brinquedos de infância, todo o seu medo e acanhamento esvaeceu-se como a névoa da montanha ao sopro da brisa matinal. Quando chegaram à casa de Umbelina com semblante risonho e as mãos entrelaçadas, já toda a afeição e intimidade entre eles estavam restabelecidas no antigo pé.
Eugênio soube retribuir com usura as visitas que lhe fizeram as vizinhas; ficou o dia inteiro em casa delas.
À tarde, depois de ter Eugênio desenferrujado a língua em plena liberdade, contando-lhes todas as particularidades da sua vida de seminarista, e de ter Margarida esgotado os capítulos da crônica de casa durante a ausência do seu amigo, esta convidou Eugênio a passear.
Sem que tivesse precedido ajuste algum, os passos dos dois adolescentes se encaminharam instintivamente para o sitio favorito de seus brinquedos de outrora e dirigiram-se através do vargedo para a ponte das paineiras. Chegados ali, Eugênio encostou-se ao tronco de uma das paineiras, e de braços cruzados ali ficou por alguns instantes silencioso e pensativo. A lembrança das horas de puro e inocente prazer, que ali outrora havia fruído em companhia de Margarida, se elevava como um perfume do íntimo do coração, e remontando ao espírito o envolvia como em um ambiente de odor e suavidade.
— Que está aí a cismar? — disse Margarida, sacudindo-lhe o braço. — Volte-se e veja o que é que está aí na casca dessa paineira e daquela também.
Eugênio reparou para o tronco das duas paineiras, e viu neles entalhados em um a letra E, e no outro a letra M.
— Eugênio e Margarida! — exclamou ele. — Aposto que é isto que querem dizer estas letras.
— É isso mesmo; adivinhou. Fui eu que fiz essas letras aí com a ponta de um canivete.
— Que bonita lembrança você teve! eu também no seminário às vezes tive essa idéia, quando estava traduzindo Virgílio... se você soubesse latim, eu havia, de jurar, que já leu aquele autor...
"Crescent illae, et vos crescetis, amores."
— Não entendo nada desses latinórios; o que sei é que esta árvore sou eu, e essa lá é você. Assim como elas nasceram aqui juntas e juntas hão de morrer, assim desejo que aconteça a nós dois, que também nascemos perto um do outro e fomos criados juntos. Nós também havemos de viver juntos como estas duas árvores, entrançando no ar os ramos uns nos outros, não é assim, Eugênio!
— Quem dera, Margarida!... se Deus permitisse isso era tão bom!... mas... eu sei?...
— Há de permitir; por que não? que necessidade temos nós de nos apartar um do outro?
— Mas eu não sou senhor de mim, Margarida; hei de fazer o que o meu pai mandar.
— Isso é agora; mas depois que ficar homem...
— Ah! isso sim; depois que eu for homem, hei de fazer o que eu entender, e Deus nos há de ajudar, que acabados os meus estudos nunca mais nos havemos de separar, sou eu que to juro Margarida.
Depois os dois, continuando a passear pela vargem, a cada passo evocavam uma lembrança de seus brincos e travessuras infantis.
— Lembra-se do juramento que aqui me fez?... perguntou Margarida parando subitamente em certo lugar.
— Eu? qual... juramento?...
— Bem que se lembra; está se fazendo esquecido.
— Palavra, que não me lembro...
— Não creio... Pois não me jurou aqui que havia de ser eu a primeira pessoa que havia de confessar quando fosse padre?...
Padre!... a esta palavra fatal Eugênio sentiu um arrepio e estremeceu, quereria nunca mais ouvi-la em dias de sua vida, principalmente dos lábios de Margarida.
— Ora! ora! que lembrança essa agora!... replicou o moço com um sorriso desapontado e procurando disfarçar a sua perturbação — como é que eu hei de me lembrar mais dessas tolices de criança!
— Tolice! por quê?... pois não é tão bonito ser padre?...
— E é mesmo, e eu na verdade tinha muita vontade de o ser.
— Como é isso, Eugênio?... tinha? então já não tem mais?...
— A falar a verdade, Margarida... — respondeu Eugênio com hesitação — não sei o que te diga... hoje em dia não me acho com muito jeito para padre, não.
— Por quê?...
— Ora por quê?... por quê? pois você não adivinha?
— Nunca fui adivinhadeira...
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Seminarista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16585 . Acesso em: 27 fev. 2026.