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#Romances#Literatura Brasileira

O Garimpeiro

Por Bernardo Guimarães (1872)

A graça e gentileza de Lúcia, seu adorável recato e aquele toque simpático de melancolia que a envolvia como um véu, não podiam deixar de atrair a atenção e produzir impressão sobre a população da Bagagem, composta em grande parte de fazendeiros abastados dos arredores, que desprezando a enxada e o machado, puseram nas mãos de seus escravos o abrião e a bateia, e de jovens negociantes de todas as procedências, que vinham de remotas paragens tentar negócio com os garimpeiros. O Major por seu lado, para dar uma diversão às idéias melancólicas de sua filha, procurava entretê-la e distraí-la por todos os meios, e para esse fim costumava dar em sua casa freqüentes reuniões, a que convidava a melhor sociedade da Bagagem.

Muitos desses negociantes, muitos filhos de fazendeiros abastados, subjugados pelos encantos da gentil roceira, ofertaram a Lúcia suas homenagens; mas para logo desistiam, não achando brecha por onde pudessem entrar nos arcanos daquele coração misterioso. Outros, mais audazes ou interpretando mal a fria amabilidade com que ela os tratara, abalançaram-se a revelar sua paixão, e mesmo a pedi-la em casamento.

-minha filha, já tens vinte anos; acho que já é tempo de pensar no casamento, e tenho para ti um noivo que decerto não rejeitarás. É o senhor F. ; pediu-me hoje a tua mão. Acho- o muito capaz de fazer a tua felicidade.

Esta pequena alocução Lúcia ouvia sempre ao menos uma vez por semana, e todas as vezes com imperturbável e glacial frieza lhe respondia:

- Peço-lhe, meu pai, que não me fale ora em casamento; não me sinto com inclinação para esse estado. Talvez mais tarde. . . meu pai bem vê que minha irmã é ainda muito criança. Enquanto ela não crescer mais e não puder lhe servir de companhia, eu não posso nem devo casar-me. Julgo-me necessária para ambos.

O pai parecia aceder a estas razões e respeitava as repugnâncias da filha. É verdade também que dos pretendentes que até ali tinham aspirado à mão de Lúcia posto que fossem todos dignos e belos moços, todavia nenhum estava em condições de assegurar-lhe uma posição muito brilhante pelo lado pecuniário; e o Major, que como bom pai desejava a felicidade sem a riqueza, esperava que Lúcia encontraria ainda um marido milionário, e portanto facilmente condescendia com sua recusa.

Assim passaram-se mais alguns meses, sem que nada alterasse a monótona tristeza do viver de Lúcia, sem que uma esperança viesse alenta-la, e nem novo golpe da sorte reavivar a chaga de seus antigos sofrimentos.

Por esse tempo chegara à Bagagem um rico viajante, elegantemente trajado, com numeroso séqüito de pajens e camaradas e aparatosa bagagem. Era um jovem baiano, bem feito, bonito, e de maneiras agradáveis e insinuantes. Do Sincorá, onde se enriquecera com a compra de diamantes, viera à Bagagem continuar na mesma especulação, e examinar e explorar este novo descoberto. A chegada de um hóspede destes a uma de nossas povoações do interior produz tanta ou maior expectação do que a visita de um soberano a qualquer grande capital do mundo civilizado.

Leonel, assim se chamava o recém- chegado, tornou-se logo extremamente popular. Além de seu agradável exterior e da afabilidade de suas maneiras, era dotado de prendas e qualidades que o tornavam apreciado e desejado em todas as companhias, tocava admiravelmente violão e cantava com muita graça as modinhas e lundus da sua terra. Além de tudo era sumamente liberal, e tratava-se com luxo que, relativamente ao lugar, podia-se chamar suntuoso.

Não tardou muito que o Leonel fosse também apresentado em casa do Major. Como sabemos, este costumava dar em sua casa algumas partidas ou pequenos saraus para dar alguma diversão à melancólica disposição do espírito de sua filha. Com o aparecimento de Leonel, essas partidas, que já iam esmorecendo pelo nenhum resultado que produziam no espírito de Lúcia, recomeçaram com nova animação. O Major era calculista, e preparava as cartas para um grande jogo. Contava que a bela figura, as delicadas maneiras do jovem baiano não deixariam de produzir impressão no coração de sua filha, e a curariam para sempre de sua antiga e louca paixão. Por outro lado estava convencido, e não sem razão, que ninguém que tivesse coração de moço, podia chegar-se a Lúcia sem sentir a irresistível influência de seus lindos olhos; a experiência de todos os dias o estava confirmando. Leonel, que por sua conversação viva e alegre, por suas prendas e belas maneiras era a alma daquelas pequenas reuniões, não tardou com efeito em sentir o mágico influxo do brilho daqueles grandes olhos aveludados, daquele meigo e melancólico sorrir. Concebeu logo por ela uma paixão ardente que não podia mais dissimular.

Cerca de quinze dias depois que Leonel aparecera pela primeira vez em casa do Major, os dois, debruçados a uma janela em casa deste, travaram entre si a meia voz a seguinte conversação:

(continua...)

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