Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Nos púlpitos apareceram, entre outros, muito notavelmente, São Carlos, Sampaio, e Mont’Alverne, três franciscanos, três frades da ordem que professa a pobreza e que eram a imensa riqueza da nossa tribuna sagrada. No coro avultava não menos o padre José Maurício Nunes Garcia, indisputavelmente um desses homens privilegiados em cujo espírito Deus acende a flama do gênio.
Dir-se-ia que a natureza virgem e portentosa do Brasil supria com suas inspirações patrióticas e arrebatadoras as academias e os mestres abalizados que faltavam na América portuguesa a esses e a todos os belos talentos. Certo é que eles excederam a expectativa da família real e dos fidalgos portugueses, que reconheceram não ter deixado na culta Lisboa quem os levasse a palma na eloqüência e na música sagrada.
São Carlos foi, além de brilhante orador, um literato profundo e grande poeta. A sua oração fúnebre pelas exéquias da Rainha D. Maria
I é um verdadeiro e magnífico triunfo de inteligência. O seu poema a Assunção, uma glória da pátria. São Carlos era ainda notável pela facilidade com que improvisava sermões, quando era inesperadamente arrancado da sua cela para subir à sagrada tribuna.
Sampaio arrebatava o seu auditório por uma graça natural, que falava a todos os corações. Às vezes, interrompia o fio do discurso para aproveitar um incidente que ocorria, e de que tirava sempre surpreendente partido.
Um dia em que rebentara uma forte trovoada na ocasião em que ele se achava pregando, Sampaio, ao escutar o ribombo de um horrível trovão, cortou de súbito a ligação das idéias em que ia, e em uma apóstrofe ardente e bem cabida, inspirada pelo estampido que ouvira, encheu de assombro e deixou em êxtase a todo o concurso que se reunira na igreja.
A um desses dois pregadores refere-se um belo repente que não deixarei de lembrar aqui.
Solenizava-se na capela real a Santíssima Senhora das Dores. Um incômodo não tinha permitido vir assistir à festa a Rainha D. Maria I. Não se contava com ela. O orador subira ao púlpito e ia já em meio do sermão, quando, aparecendo a rainha, teve de tornar a começá-lo. Então, voltando-se para a tribuna real, exclamou, repetindo o verso de Virgílio:
“Infandum, regina, jubes renovare dolore...”
Mont’Alverne foi dos três ilustres franciscanos o que fulgurou ainda nos nossos dias, floresceu em todo o reinado do primeiro imperador. Algum tempo depois, porém, achou-se em vida sepultado no horror da cegueira, e não tornou ao púlpito. O Sr. D. Pedro II conseguiu fazê-lo pregar de novo, e no dia 19 de outubro de 1854 Mont’Alverne entoou o seu canto do cisne em um eloqüentíssimo panegírico de D. Pedro de Alcântara na capela imperial. Esse sermão foi um acontecimento que abalou a população da capital, e o que se passou então na capela não se pode explicar nem descrever. Sentiu-se. Não se diz.
O padre José Maurício Nunes Garcia conquistou naquela época a reputação de um fertilíssimo, severo e notável compositor de músicas sacras, e era, além disso, recomendável pelo seu nobre caráter, como por sua instrução.
As composições do padre José Maurício eram clássicas, magistrais, e ainda hoje se admiram. O príncipe regente estimava muito o grande músico brasileiro. Em uma dessas festas grandiosas que então se celebravam na capela real, o Sr. D. João VI sentiu-se tão arrebatado, ouvindo executar a música de uma nova missa do padre José Maurício, que uma hora depois o mandou chamar ao paço, e aí, em plena corte, o encheu de louvores, e tirando da farda do conde de Vila Nova da Rainha o hábito de Cristo, com a sua própria mão colocou-a no peito do seu estimado e eminente mestre de capela.
A boa vontade e os sentimentos generosos do rei nem sempre eram imitados pela sua corte: o padre José Maurício teve nela desafeiçoados, especialmente depois que chegou de Lisboa o mestre Marcos Portugal, que se tornou bem depressa seu decidido rival. Os profissionais estão no caso de julgar qual dos dois tinha mais merecimento, e as boas e conscienciosas autoridades na matéria sempre ouvi darem preferência ao compositor brasileiro.
Em certa ocasião, o padre José Maurício e Marcos Portugal tiveram de medir artisticamente as suas forças.
Devia-se solenizar na fazenda de Santa Cruz a degolação de São João Batista. O rei quis música nova, e os seus dois mestres de capela foram chamados a satisfazê-lo.
Era uma luta artística que ia ter lugar, e em resultado Marcos Portugal empregou um mês para compor as matinas, ao tempo que e padre José Maurício compôs em quinze dias uma grande missa e credo que ainda hoje se executam com aplausos dos mais profundos entendedores.
Neukomm, o discípulo predileto de Haydn, o compositor
daquele famoso concerto que foi executado por três mil artistas na inauguração
da estátua de Gutenberg, Neukomm, que viera para o Rio de Janeiro com a colônia
artística dirigida por Lebreton, dizia a quem o queria ouvir que o padre José
Maurício era o primeiro improvisador de música que ele tinha conhecido, e a
propósito, contava o seguinte fato.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.