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#Romances#Literatura Brasileira

Diva

Por José de Alencar (1864)

—Mas por que motivo? Percebeu alguma vez em mim a menor intenção de abusar?... 

—Nunca!... Era uma cousa que não estava em mim! Um temor vago e indefinível... Parecia-me que o hálito de sua primeira palavra vinha murchar em minha alma a única flor de sentimento que brotara nela... E eu defendia-me afastando-o... Naquela noite... não o entendi... Disse aquelas más palavras... Perdoe-me! Eu também sofri... Sofri mais porque elas não eram vingança, não. Gemidos, sim, de quem tanto perdia!... 

Fui eu então, eu insultado e escarnecido, que pedi a essa mulher o perdão de minha vingança. 

A tarde caia. A solidão começava a encher-se de sombras, de perfumes, de eloquentes silêncios. Emília sorveu com delícias esse respiro dos campos na hora do crepúsculo. 

—Que linda tarde!... murmurou. Aqui... parece-me que eu poderia crer... Mas lá!... Seu lábio desfolhou um triste sorriso. 

—Vamos, Mila! disse D. Leocádia. 

—Sim, minha tia. 

Ela estendeu-me entre as rendas de seu lenço a ponta dos dedos que eu apertei de leve. 

—Seja meu amigo! E desceu como um silfo, voando sobre as pedras da cascata. 


X

TODA a noite tive deslumbramentos n'alma. 

Que esfinge era essa moça de dezoito anos? Virgem, que o severo pudor velava, e falando de amor com a franqueza e a calma de quem já dele se saciara! Coração puro de paixões e ermo já de esperanças! Seria a congelação precoce do sentimento? Não! pensava eu. Deve de ser a ingenuidade da inocência. As rosas de sua alma não podem ter assim murchado na primavera da vida; estão apenas em botão; o que as desmaia é sombra da infância ainda, e não o verme do coração —a dúvida. 

Amava Emília, sem o saber; comecei a adorá-la. 

Que horas encantadas vivi repassando na memória os seus desdéns! Agora eu os compreendia: eles me revelavam a tormenta de uma paixão nascente, que tolda a manhã da vida, como as tempestades dos primeiros dias do ano. Ela tinha medo de amar-me... 

Talvez amava-me já, resistindo ainda!... 

—Meu Deus! exclamei. Que fiz eu para tanta felicidade!... 

Uma circunstância unicamente me parecia obscura, depois da confidência de Emília. Era a maneira por que me tinha recebido a primeira vez depois da minha volta. Era sobretudo aquele olhar fulgurante de cólera, de tão soberba cólera! Não houvera nos seus olhos despeito só ou repulsão; houvera mais que ódio, profundo rancor. 

Uma vez pedi-lhe a explicação desse olhar; ela enrubesceu: 

—Não me pergunte isso!... Não lho direi nunca! Dous dias depois da nossa conversa junto à cascata, fui a Matacavalos, onde esperava encontrá-la. Ia cheio dos enlevos de tão sonhadas esperanças, inundado da felicidade que borbotava em meu seio... 

Ia assim, transbordando dilúvios de imenso amor, que ansiava por se rojar a seus pés. 

E bastou a sua presença para confranger de súbito as enérgicas expansões de minha alma. 

Ela respondeu ao meu cumprimento com afabilidade; mas... Era a mesma afabilidade que dispensava à turba dos seus adoradores! Quanto achei doce o passado desdém, que ao menos me distinguia! Emília mostrava ter completamente esquecido quanto entre nós houvera três dias antes. Uma vez no correr da noite quis falar-lhe. 

Vendo-me aproximar, toda sua pessoa envolveu-se de repente na frieza glacial, que de longe ainda já, me tinha congelado a palavra nos lábios. Essa mulher, cheia de graça e vida, tinha o mágico poder de fazer-se mármore, quando queria. 

Nessa noite ela retirou-se mais tarde do que tinha costume. Ao sair passou junto de mim sorrindo: —Não quis hoje conversar comigo? disse-me com um doce enfado. Faze idéia do pasmo em que fiquei. 

Emília continuou a ser para mim uma esfinge. Animado por aquela palavra afetuosa tornei-me assíduo junto dela; porém encontrava sempre o mesmo acolhimento; gelo na fronte, e sarcasmo no lábio. Era quando eu menos esperava, nalgum momento em que nos achávamos sós, que ela vertia sobre mim, num olhar ou numa palavra, a ternura de sua alma. Mas depois quantos amargores, quantos azedumes, não me custavam aquelas gotas de mel? A reunião de que me falara D. Leocádia realizou-se afinal. Era o aniversário do Sr. Duarte. A casa do negociante encheu-se pela primeira vez de uma multidão de convidados. A festa começou de manhã e acabou em um baile esplêndido ao alvorecer do dia seguinte. 

À noite uma cascata de luz, borbotando dos salões, despenhou-se pelos jardins e alamedas da chácara. Os repuxos de mármore esguichavam rubis e diamantes líquidos. As folhas, que a brisa balouçava, eram nesse adereço do baile as esmeraldas, tremulando entre áscuas de ouro. 

(continua...)

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