Por José de Alencar (1870)
Mas também para que viera? Por que não ficara em sua casa esperando Horácio?
Vão lá sondar o coração feminino. Agora que sabia-se amada, a moça queria gozar de seu triunfo, e ver humilde e abatido a seus pés o rei da moda, o soberbo leão. O meio era fazer-se ardentemente desejada, tornar-se difícil e esquiva, embora lhe custasse o sacrifício dos momentos agradáveis que podia passar junto de Horácio.
A presença de Leopoldo em casa de D. Clementina a incomodara, e entretanto seu olhar parecia agora sentir a ausência do mancebo.
A princípio havia ali uma pessoa demais; agora faltava alguma coisa. Se não era um homem, era uma curiosidade, uma emoção.
— Amélia!
A moça voltou-se para ouvir D. Clementina que a chamava.
— Quero apresentar-lhe um moço, que a acha muito bonita.
Dizendo estas palavras, a dona da casa corria os olhos pela sala à busca de alguém.
— Não o vejo agora.
— Quem é?
— O Castro... Conhece?...
— Não, senhora.
— Querem ver que já se retirou?
Amélia pôde reter o monossílabo que ia cair-lhe do lábio, confirmando a suposição da dona da casa. Tinha adivinhado que se tratava do seu desconhecido.
— Então ele me acha bonita?
— O Castro?... Muito. Creio que ficou apaixonado! Se visse os olhos que lhe deitava quando a senhora chegou!
— Então foi de paixão que ele fugiu?
— Quem sabe? A paixão é como o vinho que em uns dá para rir, e em outros para chorar. Há namorados que perseguem, e outros que fogem!
Amélia julgou prudente desviar a conversa daquele assunto escabroso, no qual D. Clementina se comprazia, porque lhe recordava sua mocidade já desvanecida.
CAPÍTULO IX
Depois daquela noite Leopoldo viu Amélia duas ou três vezes; e de todas sentiu a mesma impressão que lhe causara a presença da moça em casa de D. Clementina.
Era o mesmo desencanto, a mesma insistência de seu espírito para enxergar a formosura da donzela através de um prisma deforme e caricato. Nessas ocasiões ele sofria diante da moça a fascinação do horrível, como o poeta sofre muitas vezes a fascinação do belo em face de um objeto desgracioso. Era então um poeta pelo avesso; um vate do monstruoso. Tinha na imaginação um gnomo de Victor Hugo: criava Quasímodos e Gwynplaines do sexo feminino com uma fecundidade espantosa.
Quando porém a moça desaparecia de seus olhos, operava-se em seu espírito completa mutação. Esquecia completamente o aleijão, para só lembrar a linda e graciosa figura, que poucos momentos antes sua vista repelia. Amélia ausente vingava Amélia presente. O coração do mancebo detestava tanto esta, quanto adorava ainda a outra.
— Este amor é um inferno, pensava ele; tem um vício orgânico. Há de viver de dores e lágrimas; há de alimentar-se de minhas tristezas. E assim irá definhando até morrer de consunção, depois que me tiver devorado todo o coração. Que importa?
— Servirei de pasto a este abutre. O que somos nós afinal de contas? Uma presa; enquanto vivos, a presa das moléstias e das paixões próprias ou alheias; depois de mortos, a presa dos vermes ou das chamas.
Com tal disposição de espírito voltou ele dias depois à casa de D. Clementina. Nesta noite havia uma pequena partida; Leopoldo contava, pois, encontrar Amélia.
Ali estava com efeito, vestida de escarlate e branco; e adornada com a sua graça arrebatadora. Quando o moço entrou, ela dançava com as costas voltadas para a porta e não o viu; porém, momentos depois virou o rosto como se obedecesse a um impulso estranho, e encontrou o olhar ardente de Leopoldo.
A moça fez insensivelmente um movimento para afastar-se, que entretanto a aproximou da porta. Aquele olhar que a atraía ao mesmo tempo que a repelia, causou-lhe um desvanecimento misturado de terror. Felizmente a terceira figura da marca da contradança começava, e a distraiu de sua emoção.
Estava ela outra vez parada conversando com o par, quando sentiu um calafrio; sem ver, conheceu que o mancebo se aproximava, que seus lábios se abriam para dirigir-lhe a palavra:
Minha senhora, terei a honra de dançar com V. Exª. a seguinte quadrilha...
Continham uma pergunta ou uma asseveração estas palavras? Fora impossível dizê-lo. O tom parecia mais afirmativo do que interrogativo, porém o olhar do mancebo esperava, se não exigia resposta.
A confusão da dança permitiu a Amélia esquivar-se, sem responder. Quando, terminada a quadrilha, voltou a seu lugar, ficou perplexa. Tinha ela se comprometido ou não a dançar a seguinte quadrilha com Leopoldo? Não respondera, é certo; mas recordava-se vagamente de ter feito uma leve inclinação com a cabeça. Sem dúvida o moço vira esse movimento e o tomara por um sinal de assentimento.
(continua...)
ALENCAR, José de. A Pata da Gazela. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16673 . Acesso em: 8 jan. 2026.