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#Comédias#Literatura Brasileira

Uma Pupila Rica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1840)

Teodora (a Firmino) Terás sempre tempo de mandá-la sair; agora nem temos o recurso ou o pretexto da companhia de nossa velha. É verdade... (voltando-se) sabem onde foi minha tia, que tanto se demora?...

Corina

Eu não sei.

Firmino Aposto que subiu ao castelo, se está confessando com algum frade barbadinho.

Teod.

Talvez: com o júbilo do concílio de Roma triplicou de devoção e de penitência.

Júlia E tu já te confessaste, Carlos? Precisas fazê-lo...

Carlos Não tenho contas a dar-te, e nem estou para graças: (tomando o chapéu — à Teodora e Firm.) Eu saio... com licença: vou à sessão do Senado...

Teod.

É melhor; vai.

Júlia Quem perde com a tua ausência, sou eu, ingrato! (vai-se Carlos)

Cena 2ª

Firmino e Teodora, na frente; Júlia e Corina sentadas bordando; Firmino e Teodora conversam.

Corina (a Júlia) Estão a fazer castelos à espera da visita.

Júlia

(à Corina) Sem Carlos ao pé de mim não posso dissimular... estou tremendo...

Corina (a Júlia) Cala a boca.

Júlia (a Corina) Se meus pais adivinhassem tudo...

Corina (a Júlia) Pelo amor de Deus!...

Firmino (a Teodora, abrindo o relógio) Chega a hora... Corina não devia estar aqui...

Teodora (a Firmino) Não é natural separá-la de nós: esquece Corina, e lembra-te de nosso filho.

Júlia (a Corina) Vamos sair da sala?... Eu sinto frio e fogo... nem sei que sinto... vamos sair...

Corina (a Júlia) Não... domina-te... finge-te alheia a tudo.

Júlia (a Corina) Como estou nervosa!... É um tremor...

Firmino Nervosa?... Que é... com efeito... (tomando-lhe a mão) trêmula e fria como o gelo. Júlia! estás incomodada?...

Júlia Não sei papai... foi de repente... sem causa...

Firmino Oh! Teodora! Ela não está boa...

Teodora (trazendo Firmino à frente) Não há de ser nada... (a Firmino) Que simplicidade a tua! Não vês que Júlia espera por Teófilo!...

Firmino (a Teodora) Como os filhos nos enganam!... (voltando-se) Parou um carro à porta... (indo à porta)

Júlia (estremecendo e querendo levantar-se) Eu fujo...

Corina (a Júlia) Da felicidade, Júlia?...

Cena 3ª

Firmino; Teodora; Júlia; Corina (criado que logo sai) e Teófilo

Criado O senhor Teófilo de Carvalho. (vai-se) Teóf. Minha senhora... minhas senhoras... senhor Firmino...

Firmino Como passou V. Exª.?... tenha a bondade de sentar-se.

Teóf.

(sentando-se) Profundamente penhorado me confesso pela extrema delicadeza com que V. Exªs se dignaram em receber tão prontamente a minha visita...

Teod.

De nossa parte havia mais do que dever, gratidão e glória...

Firmino Estas meninas iam recolher-se, quando V. Exª. chegou. A retirada de ambas nos deixaria em plena liberdade sem inconveniente algum, se V. Exª. não ordenar o contrário...

Teóf.

Eu vim somente para ouvir e obedecer; mas com franqueza, o assunto de que me devo ocupar diz respeito a uma das duas senhoras, e nem por isso é exigente a ausência da outra.

Firmino

Senhor Teófilo ordena-lhes que fiquem...

Teóf.

Senhor Firmino, minha senhora, tenho a honra de vir pedir a V. Exªs a srª d. Júlia em casamento.

Firmino

Júlia?... Oh!...

Teodora A proposição de V. Exª. nos exalta muito e estou certa que Júlia sente e pensa como seus pais.

Firmino Sem a menor dúvida... Júlia, responde...

Teóf.

(a Júlia) Minha senhora...

Teóf.

Fala, menina...

Júlia Senhor... meus pais responderam por mim. (trêmula)

Teóf.

Oh!... É mais do que mereço! (beija a mão de Júlia)

Firmino Este dia é o mais feliz da minha vida! Devo crer que o senhor barão do Lago Azul...

Teóf.

Autorizou, aprovou e abençoa a escolha do meu coração.

Teod.

Minha Júlia (abraça-a)

Firmino Perdoe-me... mas a felicidade tem suas ânsias: nós nos entregamos ao seu arbítrio... Júlia será sua esposa, é já sua noiva; mas a mim que sou pai, é lícito perguntar, quando deseja que se realize o seu casamento...

Teóf.

(continua...)

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