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#Comédias#Literatura Brasileira

Luxo e Vaidade

Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)

Henrique — Eu a deixo em liberdade, minha senhora; sei bem que não tenho direito algum à sua confiança...(Indo-se).

Anastácio — Tu o deixas ir, Leonina?...

Leonina — Senhor...meu primo, fique.

Anastácio (À parte) — Com tenho domesticado este bichinho!...(A Leonina) Fala...

Leonina — Ah! Meu padrinho...tenta-se contra a minha felicidade, contra o futuro da minha vida...

Anastácio — Como?...

Leonina — Querem casar-me com um homem grosseiro e mau, cuja única recomendação é a riqueza...

Henrique (À parte) — Meu Deus!

Anastácio — O comendador Pereira...

Leonina — Ele mesmo!

Anastácio — Que dizes tu a isto, Henrique?...

Henrique — Meu tio!

Leonina — Meu padrinho!

Anastácio — Creio que ninguém se lembrará de casar-te contra a tua vontade, e menos de te impor à força um marido...

Leonina — Oh! mas meu pai pede, minha mãe chora, e um pai que pede, obriga: uma mãe que chora, impõe!...

Anastácio — E além disso trata-se de um fidalgo da gema; e um fidalgo, ainda que seja estúpido, grosseiro, e ainda mesmo tratante, é sempre um fidalgo, minha afilhada!

Henrique — Senhor...meu tio...atenda que ela chora!...

Leonina — Veja, meu primo, ele zomba de mim, quando as lágrimas correm de meus olhos!

Anastácio — Tens razão! Fui mau: oh! mas nunca hei de consentir que te façam desgraçada! Leonina, enxuga esse pranto...não quero que chores! Os teus olhos não devem chorar; olha-me, olha-me bem? Sabes?...o teu rosto tem um encanto indizível para mim. Tu tens o rosto de minha mãe, Leonina! Velho, ainda me lembro daquele anjo de amor e de virtudes...oh!...e lembra-me também meu pai, que morrendo nos meus braços, me recomendou Maurício, meu irmão mais moço, e me pediu que por minha vez fosse para ele um pai!...(Comovido) Oh! bom e honrado homem, que hoje gozas a bem-aventurança do céu! Oh meu pai!... eu cumprirei à risca a tua última e santa vontade! Leonina é a filha de teu filho!...é o retrato de minha mãe...não há de ser, não quero que seja desgraçada!...(Com ternura) Leonina! És também minha filha!...e para fazer-te feliz, eu tenho um tesouro de amor neste seio, que se abre para receber-te...vem! Leonina! Minha afilhada! Minha filha!...

(Aperta Leonina nos braços).

Leonina — Oh!...meu padrinho!...

Henrique — Que coração o deste homem, meu Deus!

Anastácio — (Soluçando) — Eis aí! Creio que estou chorando!... mas como é doce o

abraçar-te, Leonina! Não achas que deve ser muito agradável Henrique?...e querem fazer-te desgraçada, bela menina?...pela alma de meu pai, juro que não!

Leonina — Ouço vozes...(Observa) Ah! Meu padrinho, contenha-se; aí vêm todos os nossos amigos para o jantar.

Henrique — E vão encontrar-me aqui...é um verdadeiro vexame para mim!

Anastácio — Entra para o meu quarto e espera. (Leva até a porta do quarto a Henrique que entra) Ora vejam com quem queriam casar minha afilhada!...(Observando).

CENA VII

Anastácio, Leonina, Maurício, Hortênsia, Fabiana, Filipa, Frederico, Pereira, Reinaldo e Lúcia.

Vozes — Senhor Anastácio!...(Cumprimentam-no)

Anastácio — Minhas senhoras...meus senhores... (À parte) Devo estar com uma cara de enforcado: a presença desta gente irrita-me.

Hortênsia — Meu mano, os nossos amigos vêm dar-nos o prazer de jantar conosco para obsequiá-lo...

Fabiana — A nossa maior ambição é a conquista da sua amizade.

Anastácio — A minha amizade, Excelentíssima...(À parte) Eu não ofereço a minha amizade a esta fúria, nem que me serrem!

Filipa — A sua amizade é um tesouro que todos desejamos possuir.

Frederico — E eu muito particularmente.

Anastácio — Por quem são...os senhores confundem-me...(À parte) Está visto...eu não posso fingir...

Reinaldo — Eu cá sou amigo velho. (Dá a mão a Anastácio, que deixa apertar a sua friamente).

Pereira — E eu desejo merecer um título igual. (Á parte) Este homem não tem espírito.

Anastácio (À parte) — Reconheço-me incapaz de dizer duas palavras; mas enfim, é indispensável rebentar com alguma coisa. (A todos) Eu...eu sou um agreste roceiro que não presta para nada...(À parte). Até aqui vou bem. (A todos) Porém...ainda assim...protesto e juro a Vossas Excelências e Senhorias... (A Leonina) É assim que se diz, Leonina?...(A todos) Sim...que fui, sou, e serei sempre um bom amigo, bem entendido, de quem merecer a minha amizade.

Frederico — E nós faremos tudo por tornar-nos dignos dela.

(continua...)

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