Por Joaquim Manuel de Macedo (1880)
PERES – Eu tinha ordenado que não saíssem de casa: quiseram dar-se em espetáculo!... (Áspero).
MENDES – (Saudando) – Muito boa tarde, compadre.
PERES – Não vim fazer cumprimentos; vim dizer-te que me hás de entregar Inês...e já!..
MENDES (Tirando a caixa) – Compadre, toma tabaco.
PERES – Soube enfim o que se passou: a perversa fugiu do quartel com um velho, a quem chamava padrinho; é claro. Trouxeste-a contigo. Quero que me entregues Inês!
MENDES – Peres, vai dormir, e volta amanhã.
PERES – Não me provoques... vê bem!... eu estou fora de mim...
MENDES – E queres que eu entregue minha afilhada a um homem que está fora de si?... compadre, toma tabaco..
PERES – Velho imoral e petulante!...
JOANA – Peres!... é o nosso compadre.. o padrinho de minha filha...
PERES (Violento) – Inês não é tua filha!... a per... ver... sa!... farei dela o que eu quiser... filha?!!! pois bem: é... filha de mim só!...
MENDES – Compadre, isso é asneira! como poderias ter essa filha, tu só e sem concurso da comadre?
PERES (Furioso) – Desgraçado!... quero levar Inês... hei de descobri-la aqui.
MENDES – Pois eu seria tão tolo que trouxesse Inês para a minha casa?... procuraa... anda... (Inês espirra.)
PERES (Voltando-se.) – Alguém espirrou... foi ela! (Comoção de Mendes, Joana e Brites.) Onde? ...
MENDES – Ora, que ilusão!... compadre, ninguém espirrou! Não tens a quem dar dom inus tecum! (Inês espirra).
MENDES – Que espirro fatal! antes Inês não tivesse nariz- mas eu vou recorrer a uma moratória. (Vai-se).
Cena VII
Joana, Brites, Peres e Inês quase arrastada.
PERES – Estás em meu poder, filha indigna! vem... vem!...
INÊS (Quase sufocada) Mamãe!...
JOANA – Peres! é minha filha!... perdão!...
BRITES – Meu pai!...
PERES (Perto da porta da escada) – Arredem-se desonrou-se... desonrou-me...
seja-lhe sepultura o convento!
Cena VIII
Joana, Brites, Peres, Inês e Mendes.
MENDES – Podes levá-la, compadre; mas olha, que arrastando-a pelas ruas que estão cheias de povo, vais expor-te e expô-la às zombarias e às risadas de todos...
PERES – Se ela pusera cabeça fora da cadeirinha, mato-a!...
MENDES (Rindo) – E que, abusando do teu nome, mandei embora a cadeirinha... teus escravos me obedeceram... e foram-se.
PERES – Padrinho corrompido e corruptor!... não faltam cadeirinhas de aluguel a passar, e vê o que faço a teu despeito e em tua própria casa (A Inês) Filha amaldiçoada, espera aqui! (Abre a porta do quarto onde está Benjamim: empurra Inês para dentro tranca a porta e tira a chave).
JOANA – Peres, aí não, Peres!... (Mendes puxa Joana).
BRITES – Meu pai! nesse quarto, não! (Mendes puxa Brites).
PERES (Ao postigo ) – Há de passar alguma cadeirinha...
JOANA – Peres! não sabe o que fez!... (Mendes puxa-a).
MENDES (As duas) – Calem-se!... estão entornando o caldo...
JOANA – Minha filha não pode estar trancada... ali...
BRITES – Não pode, meu pai; atenda!...
PERES (Ao postigo) – Pode e quero!... está muito bem... está perfeitamente naquele quarto! é minha vontade que ali fique... uma. duas horas até que passe uma cadeirinha!
(Joana e Brites agitadas).
MENDES – Aprovo, compadre, aprovo, e tomo tabaco. (Toma).
Cena IX
Joana, Brites, Peres, Mendes, Pantaleão, Cônego Benedito e logo, Inês e Benjamim.
PANTALEÃO – Eu e o nosso amigo cônego Benedito (Entram).
MENDES (A Benedito) – Chegou a propósito, meu vigário geral!
BENEDITO (Aperta a mão de Mendes) – Sra. Joana! menina Brites!
(Cumprimenta).
PERES – Cônego! (Vem apertar-lhe a mão).
BENEDITO – Peres!... sei que aflição te consome; há, porém, na igreja remédio para todos os sofrimentos. Que é da menina Inês, contava com ela aqui... e vim...
PERES – Inês está trancada por mim naquele quarto; mas quem dispõe do seu
destino, sou eu só,
MENDES – Tal e qual, meu amigo, e tanto que ele trancou-a no quarto, deixando-a fechada e só com o seu namorado!...
PERES – Oh!... calúnia infame!... (Abre a porta do quarto e saem dele Inês e Benjamim) Miserável! (A Benjamim, Benedito sustem Peres).
BENJAMIM – Oh, e esta? tenho eu a culpa de que o senhor trancasse a menina no quarto, onde eu estava tão sossegado!...
BENEDITO – Vem cá, Peres!... (A um lado) Não estás vendo, que a providência o quer?...
PERES – Juro que não sabia... que ele estava lá...
BENEDITO – Mas à vista de nós todos... tua filha trancada por ti nesse quarto... saiu dele com um mancebo que a ama, que é amado por ela, Peres!...
MENDES – E que mancebo!... o filho do teu amigo Jerônimo,
que te salvou a vida!... (Aos dois).
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Antonica da Silva. 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=213 . Acesso em: 02 jan. 2026.